Fevereiro passou voando e abocanhou meus dedos, como as gaivotas de Haia, quando estamos distraídos com um sanduíche de arenque nas mãos, nos arredores do parlamento holandês.
Meus dedos continuam aqui, porém feridos pelas bicadas famintas daqueles que não deveriam ser predadores de humanos.
É desta forma que percebo minha alma, por vezes abocanhada ao ter contato com determinadas pessoas.
Não são as chamadas pessoas tóxicas, tão em voga na contemporaneidade, mas são indivíduos que por vezes emitem comportamentos dúbios, eu não diria indecifráveis porque há a possibilidade de constatarmos a intenção por de trás de diversos gestos, contudo ambíguos e sedentos de controvérsia.
Eu apenas observo, vez ou outra interajo sem que necessariamente intente em acatar alguma carga da negatividade que exaspere de uma língua afiada (e quase bífida), a destilar seu veneno, eu não diria mortal, mas certeiro.
Sim, somos seres falhos e confusos, e mesmo que minhas mazelas insistam em me empurrar buraco abaixo, venho trabalhando a escuta seletiva, na realidade eu substituiria “escuta” por “interação”, pois herdei a boa audição de minha avó paterna e a perspicácia de negociação de minha avó materna, de modo que escuto, mas reluto em absorver o fardo que chega a mim.
Mas ele chega, imponente e entrão. E eu mentiria se dissesse que este pessimismo exacerbado e reclamão na verdade não me afeta.
Porém, sigo dia a dia, olhando mais adiante, buscando tirar esta minha autoestima flutuante de sua corda bamba e estancando os jorros das feridas de meu coração.

Bora de poesia, para afagar a alma e acalentar o coração dentro do peito,

Vez ou outra, no escuro
Na garganta sinto um nó
Quase vou sentindo dó
Deste lado obscuro
E persisto, eu me procuro
Vou buscando o “eu” contido
Mesmo sem fazer sentido
Eu insisto em me encontrar
Para me fazer lembrar
De meu coração partido.

Um abraco,
Graziela Barduco

Graziela Barduco