As ações das Teodoras do Cordel na Casa do Cordel e na Casa Minc

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026 teve suas ruas de pedras e casas históricas profundamente marcadas pela força contagiante do coletivo Teodoras do Cordel – Artevistas SP. Com uma presença performática e visceral, as artistas do coletivo transformaram a Casa do Cordel, sediada noseu de Arte Sacra de Paraty através do Iphan e a Casa MinC nos verdadeiros epicentros da poesia popular feita por e para mulheres. As Teodoras do Cordel não apenas figuraram na programação do evento, mas expandiram os limites da tradição cordelista por meio de uma ocupação artística e de resistência ao longo de todo o evento.

A atuação do coletivo desdobrou-se em uma série de intervenções artísticas, performáticas e dinâmicas, abarcando a métrica das sextilhas, setilhas e décimas, que serviu como veículo para versar sobre temas urgentes como o combate à violência contra a mulher, a igualdade de gênero, o racismo estrutural e a justiça ambiental. Além das apresentações e do lançamento da nova obra do coletivo, “No Ritmo do Cordel ” (editora: Cordelaria Castro), o grupo promoveu ainda a venda direta de livros e folhetos inéditos, fortalecendo a economia criativa independente. Nas mesas de debate, as integrantes lideraram discussões profundas sobre o resgate histórico de autoras esquecidas e o combate ao apagamento feminino na literatura popular brasileira, bem como acerca da Literatura de Cordel na Educação Infantil.

O ponto alto e mais emocionante dessa passagem por Paraty ocorreu durante o encontro entre as Teodoras do Cordel e a escritora Conceição Evaristo. O momento, que aconteceu no intervalo entre a mesa sobre literatura, cultura e territórios (com a participação de Conceição Evaristo) e a mesa sobre o cordel na educação infantil (com a participação das artistas do coletivo Teodoras do Cordel), transcendeu a mera celebração festiva e consolidou-se como um ato de profunda cumplicidade e ancestralidade.

Aclamada por sua trajetória, Conceição foi homenageada pelo coletivo na obra “Mulheres Negras que Marcaram a História”, entregue à autora em mãos pelas artistas do coletivo, criando uma atmosfera vibrante de afeto e exaltação poética. Durante a entrega dessa e de outras obras das artistas do coletivo, as autoras celebraram a potência feminina, ressaltando que o cordel produzido por mulheres é a corporificação perfeita da “escrevivência”, termo cunhado por Conceição Evaristo para designar a escrita que brota do corpo, da vivência e da memória coletiva.

A passagem ostensiva e vibrante das Teodoras do Cordel pela Flip 2026 deixou um legado duradouro ao demonstrar que a poesia popular não se limita a visões folclorizadas ou passadas. Ao entrelaçar a precisão das rimas com a urgência das pautas feministas e antirracistas, e ao selar essa união com o pensamento de Conceição Evaristo, o coletivo reafirmou que o cordel contemporâneo é um território vivo, que se alimenta respeitosamente da ancestralidade, além de uma potente ferramenta de resistência e protagonismo feminino.

Texto: Graziela Barduco

Fotos: J. P. Rezek, Morena Freitas e Nina Fernandez

 

À Conceição Evaristo

 

Conheci sua escrita

Que me fez iluminar

Em cada palavra dita

Sua obra a me guiar

Conceição é infinita

Tanta coisa a me inspirar

 

Mulher forte, tão sublime

Tanta garra, tanta luz

Um olhar que tudo imprime

Numa escrita que seduz

Na poesia que exprime

Uma força que conduz

 

Vem da dor vivenciada

Uma voz que não se cala

Na escrita eternizada

Pelo mundo ela se instala

Nessa luta já travada

Tanta potência na fala

 

Evaristo, Conceição

É guerreira, resistência

Na profunda inspiração

Brilha assim a sua essência

Com a voz do coração

Ensinou-me “escrevivência”.

 

Graziela Barduco

 

 

 

Graziela Barduco