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04 set

Setembro Amarelo: Cordel para Gi

Olá, queridos leitores e queridas leitoras.

Setembro começa e, mais que isso, setembro amarelo começa.
E foi embebida pela aura do setembro amarelo que me arrisquei a fazer meu primeiro folheto de cordel no ano retrasado, e resolvendo mais recentemente, neste atual setembro amarelo, lançar uma segunda edição dele.
“Cordel para Gi” surgiu-me enquanto uma homenagem a uma amiga muito querida que partiu tão precocemente, bem como deu-se como uma espécie de desabafo/desafogo, inerente ao meu processo de luto.
Gi partiu de forma brusca, vítima da depressão, que surge sempre muito silenciosa e quando chega ao ponto que chegou para ela, faz um estrago que não tem volta.
E é por isso que sou tão insistente em compartilhar o que sinto. Por autopreservação e para encorajar o leitor a fazer o mesmo. Porque o silêncio e a solidão são os piores aliados dessa doença tão cruel e arrebatadora. Então: diga, sinalize, peça ajuda e lembre-se que vc nunca está só.

Naquele dia eu fiquei o dia inteiro com uma história super engasgada em mim e então fui tentar sentar, me organizar, tentar me reconstruir, pra poder externar em palavras o turbilhão de sensações que me rondou naquele momento e que só depois do ofício do dia concluído é que pude por fim desabafar/desabar.
Eu soube naquele dia que a minha amiga Gi  havia partido. E o meu chão se abriu.
Não teve despedida, não teve encontro pós pandemia pra colarmos lambe lambes (foi ela quem me ensinou a colar), não vai ter mais coco, não vai ter mais batucada, não vai ter mais gargalhadas, não vai ter mais nada, nunca mais.
Restou-me colocar em versos o que tanto doía no peito, na esperança de aliviar um pouco do desespero de nada mais poder fazer, bem como na tentativa de eternizar sua passagem rápida e iluminada por aqui.
Desta forma, compartilho com vocês o que saiu de toda esta tentativa de curar uma ferida que sei que nunca irá se fechar, mas que falar sobre ajuda a trocar os curativos, a limpar a bandagem e a fazer o peito respirar.

 

Cordel para Gi

Resolvi eternizar
Nesta minha abstração
Querendo homenagear
Com meu peito em suspensão
Pra tentar me perdoar
Seu legado eu vou honrar
E levar no coração

Giovana acordou
E queria se animar
Mas seu corpo desabou
Sem a alma no lugar
Foi pro poço e afundou
Pra tentar se libertar

Lá na porta alguém chegou
Pra tentar lhe estimular
Giovana nem ligou
Não queria despertar
A sineta então tocou
E assim não quis parar

Com o ouvido em zumbido
Giovana se moveu
Sem da dor ter se esquecido
Foi a porta, e a atendeu
Com um amargo desmedido
Que sua amiga percebeu

Num olhar, assim comprido
Carolina a compreendeu
Gi na vida sem sentido
Lina logo lhe acolheu
E na gola do vestido
Sua lágrima escorreu

Lina entrou, cuidou da amiga
Fez um chá, ligou o chuveiro
Pos mandalas numa viga
E na mesa um bom dinheiro
Pos no rádio uma cantiga
Com seu ritmo festeiro

E Giovana assim se abriga
Mas no peito, há um aguaceiro
Um cansaço, uma fadiga
Pensamento tão ligeiro
E na alma aquela urtiga
Que brotou no seu canteiro

Aos pouquinhos, se acalmou
E com olhos embaçados
Diz que Deus a abandonou
Corpo e alma estragados
E tão breve, lhe jurou
Que pagava seus pecados

Lina ouviu, lhe abraçou
Afagou-lhe os cabelos
Calmamente lhe explicou
Sem maiores atropelos
Que ali ela chegou
Pra vencer seus pesadelos

As mazelas desta vida
Nos atingem facilmente
Abrem em nós grande ferida
Nos machucam densamente
Deixam a alma encolhida
E o corpo em febre ardente

Gi esboçou-lhe um sorriso
Mas com baixa energia
Um olhar tão indeciso
Envolvido em afasia
Tanta dor de improviso
O peito em taquicardia

Lina, calma se fazia
Quis lembrar do tratamento
Do doutor que lhe atendia
E de seu medicamento
Porém Gi não compreendia
Tinha em si tanto tormento

A amiga ficou calma
Pra passar-lhe segurança
Pois doença que é da alma
Uma hora o corpo alcança
E estendeu-lhe sua palma
Pra lembrá-la da esperança

Giovana sempre linda
Efusiva e brilhante
Tinha um dom que não se finda
De ter alma de brincante
E menina, jovem ainda
Com seu corpo então bailante

A jogar com as sentenças
Mergulhada na poesia
Tinha em si diversas crenças
Tinha outrora alegria
E fazia as diferenças
Em tudo o que ela dizia

Lina pensa com amor
Em quando se encontraram
Em um dia de calor
E nos lambes que colaram
Do barulho do tambor
E no tanto que dançaram

Gi tocando sua alfaia
Lina em seu tamborim
Lembra a cor de sua saia
Um vermelho assim carmim
E pensaram em ir pra praia
Mas só foram ao botequim

Passa um filme na memória
Lina então segura a dor
E se faz contraditória
Faz-se forte, sem pavor
E se vê assim simplória
Ao tentar se recompor

Gi está mal, não é de agora
Lina dantes não sabia
Gi queria ir embora
Lina então a abraçaria
Tudo agora lhe apavora
Gi que outrora era poesia

Lina pensa em Giovana
Que em seu colo já dormia
Lembra do fim de semana
Quando Gi ainda sorria
E recorda de sua gana
Sem ter tal melancolia

Desde quando decidiu
Se mudar pra Ilha Bela
Nada mais a impediu
De içar seu barco à vela
Gi pra ilha então partiu
A buscar seu sentinela

E chegou tão renovada
Conheceu vários amigos
Se sentiu tão mais amada
Encontrou muitos abrigos
E com Lina na empreitada
Esquecia dos perigos

Lina passa a pensar
Quando tudo começara
Na amiga a definhar
E pensou em que falhara
Na tristeza a chegar
No temor que lhe assolara

E lembrou que em sua entrada
Avistou algo suspeito
Tanta coisa acumulada
Álcool e fósforo em seu leito
E ficou atordoada
A sentir um frio no peito

Já enquanto Gi dormia
Lina achou logo um bilhete
Com uma escrita sem poesia
Como um rasgo de estilete
Que o peito destruía
Bem debaixo do tapete

Lina teve uma tonteira
E então tomou ciência
Ao sentar-se na cadeira
Pos a mão na consciência
Sua visita foi certeira
Impedindo a diligência

Gi aos poucos acordava
Lina então lhe deu um abraço
Gi de nada se lembrava
Lina deu-lhe logo espaço
Sem cobrança, lhe acalmava
E chamou-lhe pro terraço

Gi aos poucos levantava
Pra tomar aquele ar
E a cabeça ainda girava
Mas queria ver o mar
Lina atenta lhe escorava
Ajudando a amiga a andar

Lina fica satisfeita
Ao olhar a amiga em pé
E o sol então a enfeita
Com a brisa da maré
Gi que era tão perfeita
Só sonhava em ter mais fé

E o mar foi contemplado
Com sua cor tão reluzente
Em um tom esverdeado
E sua onda tão valente
A quebrar só de um lado
Então Gi refresca a mente

Porém tudo diluiu
Como virando fumaça
Lina então logo sumiu
Revelando-se a desgraça
A esperança sucumbiu
Como vidro  que estilhaça

Lina a tempo não chegou
Tudo fora uma ilusão
O seu peito se afogou
Giovana foi-se ao chão
Sua luz quase apagou
Oscilou, piscou, voltou
Gi partiu com a depressão.

 

Um abraço apertado e até a próxima.

Graziela Barduco.

27 ago

A ARTE DO FAZER ARTÍSTICO

Olá, sou Dennah Sossai, e com muito carinho e alegria me reverencio como colunista neste projeto cheio de ternura. Sou uma Teodora e deste então, tenho me proposto a caminhar no Cordel e alavancar no fazer coletivo.

Vou relatar lembranças do meu bem viver. Sobre as experiências da construção do MAMULENGO. Em 2018, participei do curso de bonecos gigantes em Campinas, na qual o professor ofereceu todo o secreto mágico do aprendizado. Entrei no processo de ser construtora de bonecos, e a partir dali, nunca mais me separei desta arte. É algo intenso, que não tem explicação, tal jornada que me levou ao autoconhecimento do meu fazer com as mãos. Este conhecimento me deu a sensação de recomposição de alma, colaborou com o esquecimento de perdas e de derrotas que a vida insistia em impor em alguns momentos vivido.

Hoje percebo que, os primeiros rostos que esculpia no papel machê, me remetia aos monstrinhos do meu EU interior. Sinto que este aprendizado veio de encontro com as surpreendentes forças que até então, não tinha conhecimento, e a mesma FORÇA foi acolhendo as cicatrizes de raízes profundas, dando-lhe o poder de ser vista, analisada e amparada. Assim começa o ponta pé no meu processo de cura, daquelas supostas fraquezas, que me envolvia neste imaginário imposto pela sociedade de certos e errados, conseguindo cobrir-me em um manto de inverdades. Forçando-me a anular diante da compreensão do meu verdadeiro EU.

A memória que tenho do início desta jornada artística, é um tanto claro da falta de incentivo dos parentes próximos, e com certa fala de descrença. Era um começo de muita expectativa de acertos, queria estar apoiada ao reconhecimento alheio. Na época em alguns momentos tinha o aborrecimento. Mas, agora enxergo que estes momentos, não me abalava completamente, pois a satisfação pessoal era o preenchimento de tudo e qualquer devaneio alheio. Na verdade, serviu de inspiração para continuar sempre em frente na nascente desconhecida, percebendo que poderia ser um sinal, da tão almejada missão do bem viver, tal brincar de construir bonecos me proporcionou saúde física e emocional. Mostrando o poder do explorar, redescobrir e demonstrar ideias com pitadas de satisfação que elevava a minha autoestima e a qualidade de vida. Abandonei a limitação e a ansiedade, exercendo o poder da verbalização de sentimentos. Tendo a facilidade de expressar com a veracidade da Arte de contar e fazer estórias, percebi criativa e brincante.

Enfim! Trouxe o  meu candeeiro para iluminar a vida…, mas este assunto ficará para o próximo mês….  Gratidão.

25 ago

Iluminada

É uma daquelas pessoas positivas, que, mesmo sob pressão, é capaz de enxergar soluções valorosas nas mais inesperadas situações. Que persiste naquilo que acredita e que, na coletividade, se constrói enquanto ser humano, inspirando aqueles que com ela convive. É regida por uma força interior admirável. É protegida por anjos, invisíveis a alguns olhos, mas perceptíveis para os que no divino creem. Aquela, que quando o coração raramente fica triste, ergue a cabeça no dia seguinte e é grata a vida por ter mais uma oportunidade de superar os desafios. Que, ao invés de diminuir seus sonhos, prefere mesmo é aumentar suas habilidades, ainda que durante o percurso alguns desses sonhos sejam queimados e virem cinzas. Mesmo assim, ela continua seguindo em frente e acreditando na vida pela simples certeza de que, hoje e sempre, Deus será sempre fiel.

18 ago

Terra Mãe

Mulheres encantadoras,

Chamadas de “femininas”

Nem frágeis, nem delicadas

São Fortes, são heroínas

Eu falo de todas elas

Seja adultas ou meninas

 

Confundidas com a terra

Aglutinam a grandeza

De uma mãe que pariu

O plantio da natureza

Gerando todos os seres

Vivendo dessa riqueza

 

Falo da maternidade

Um ato impressionante

Gera, pare e dar a luz

De maneira apaixonante

Vem do útero ou coração

Que a mulher fica gestante

 

A atitude do criar

Não existe facilidade

Leva tempo e paciência,

Em troca a felicidade

De um dia ver crescer

Da prole a liberdade.

 

Se tornar mãe não é fácil.

É duro na sociedade!

São julgamentos impostos,

Falam sem propriedade,

Cobram e apontam o dedo

Dão a responsabilidade.

 

Por que nós somos julgadas?

Se é do fruto coletivo?

Que se faz uma criança.

Pra mulher é punitivo,

Não existe a escolha,

Já pro homem, optativo.

 

Vemos muito por ai,

Mulher criando sozinha.

Trabalha, cuida de casa

Sem parceiro, ela caminha.

Os olhares são estranhos

Mas nunca perdem a linha.

 

O homem é “diferente”!

O abandono parental,

A sociedade aplaude

Fecha os olhos, é normal.

Reflexo da ideologia

Machista e patriarcal

 

Em muitas comunidades

A coisa foi diferente:

Os filhos eram comuns

O cuidado conseqüente,

Nas Aldeias de Indígenas

A prática é vigente.

 

A opressão transformou

As pessoas em objeto.

São só números vagos

Pro capital, um projeto

De explorar mais e mais

Nosso povo por completo.

 

Mulheres com ou sem filhos,

As Casadas e solteiras,

Todas as trabalhadoras,

Sem avenças e fronteiras.

Hetéro, bi, trans, lésbicas

Todas somos companheiras!

 

 

11 ago

Alinhavos da vida

Gosto do jeito gostoso de gostar de você,
de receber do seu olhar, o sol que falta em mim.
Gosto de um escalda pés bem quente, com um raminho de lavanda, que revela a lembrança de um tempo de outrora. De comer bolo de rolo com um cafezinho bom.
De me balançar na rede, de correr que nem foguete, atrás de um bom forró.
Gosto de me embalar na ciranda, de molhar meus pés no mar em um dia ensolarado, e ouvir de olhos fechados a poética das ondas, que me fazem relaxar, me sentir perto de Deus.
Gosto do olhar de uma criança que reflete a minha imagem quando atenta me enxerga.
De me encontrar com os amigos e também desconhecidos que no meio do caminho, tantas lições revelam.
Gosto de um abraço prolongado, uma massagem nos ombros e de ler boas histórias, em livros que nos transportam a vidas inesquecíveis.
Gosto do cheiro de minha mãe, da benção do meu avô, da comida da minha vó.
Gosto de conhecer novas praças, de revisitar lugares, de ouvir os passarinhos, de planta, música e carinho.
De brincar com minhas crias, de estar com minha família, de me conectar ao divino, neste grande alinhavo, de vivências e histórias, tatuado na memória de uma vida bem vivida.

Epílogo da obra Maternagem em Sete Versos, de Dani Almeida

07 ago

Bei Jô

BEI JÔ 

Olá, tudo bem? Como estás? Vamos ao meu debut, aqui assinando a coluna BRINQUEDOS E FOLGUEDOS – O universo das tradições populares brasileiras. Espia a afoiteza da minha pessoa, lançando um tema estendal desse. E quando falo universo, ao bem da verdade, melhor se apropriaria o termo MULTIversos, pois são manifestações facetadas em artes integradas, que desenvolvem temas nossos, cotidianos, costumes, crenças, mitos… Porque Brasil é assim, tudo em um só instante, e cada brinquedo, em seu “aqui e agora”, mantém vivaz a narrativa do nosso enredo, versado em nós, povo plural.  

As expressões populares contextualizam a nossa cosmologia… Sim, vou falar de muitas coisas que podem ilustrar quem somos, explicar alguns comportamentos e perceber atitudes que temos, como povo brasileiro, salve meu guru Darcy!  Sem perder o fio da poesia, vou falar das nascentes de variados “Brasil”. E aqui, já pedindo licença à Ancestralidade e, também, para me livrar de encrenca com as respectivas personagens verossímeis, vou trazer a história, os acontecimentos, os causos, ora via contos de realismo fantástico, ora versejando nas variadas métricas do cordel. E seguindo a irreverência de nossas brincadeiras, ora seguirei em passeios crônicos pela vida da cultura popular como ela é, em personas fictícias; ou através de minha interpretação, por verossimilhança, como brincadora de rua por mais de quatro décadas. Tendo em espírito criativo e maestria nessa guiança, o paraibano da Serra do Teixeira, Poeta do Absurdo, Zé Limeira. Acho que vais gostar. Tudo bem?! Espero que sim. E o assunto da vez é: Jô Soares.   

Os folguedos brasileiros, festas da “folga” do trabalhador mestiço, as danças, as personagens, a musicalidade, a expressão, a poesia, o cenário, as indumentárias, as danças, as comidas sagradas, os deuses, povos e nações que aqui estiveram e estão, são meu alimento imaterial há muito tempo. É minha respiração, fonte de autoconhecimento e estruturação identitária. Sempre comento que quando sabemos todas as respostas, o destino muda todas as perguntas. E hoje a minha programação do dia 5/08/2022 era justamente, com o peito cheio de gratidão, escrever pela primeira vez aqui, neste respeitoso sítio de amizade, para publicação no primeiro sábado do mês, ou seja dia 06/08. Mas com a fatídica notícia que Jô havia morrido, chorei até secar. E como rosa murchei e como embuá me fechei. Senti-me tal como a mente de Alonso, de Cervantes, seca. Meu herói da cena, meu símbolo de criatividade, tinha ido embora. Fiquei sem chão também quando Chico Anysio pousou no firmamento. Mas sei que agora tá tudo misturado por lá. Imaginas a festa junto com Agildo Ribeiro, Miele, Ary Toledo, Costinha, Dercy Gonçalves, Marinês e Elke, só para começar? Pensando nessa turma, sinto-me livre para falar o que era preciso e desatar o nó da guela!   

Esses são heróis e heroínas não só meu mais do povo brasileiro. Mas falo de pessoas poderosas, não de objeto plástico para se pregar na parede, ou se expor na estante. Imóvel e obsoleto, criando poeira e parado no tempo. Remeto a memórias vivazes, lembrança-comida da construção de referências míticas, que se tornaram em meu caso, o viés de salvação pessoal, a saída para uma realidade adversa, preconceituosa e machista. Entristeci muito. Sei que Ele ia um dia, mas logo no dia que reservado à estreia da coluna? Perdi o fio da meada. Fiquei estanque, com discurso, mas sem curso. “E a coluna?”, pensei. É, a (o) leitora (o) é mais importante nesta hora. Em respeito a ti, que me lê, eis o caldo que consegui moer.  

Em um panteão junto com tantas outras pessoas da comicidade brasileira, Jô era a nossa realidade fantástica onde se podia brincar e, como falamos em Recife, “tirar onda da cara de” qualquer um daquela sociedade, daquele tempo. Em meu caso, nas décadas de 70 e 80, o cenário midiático do humor foi fonte de meu repertório infantil e de desenvolvimento adolescente, adulto e hoje na pessoa velha. A ideia de poder ter várias caras em uma só, era a resposta para uma mente fragmentada. Rir parecia ser a forma de sair da invisibilidade, mesmo que fosse “rir de mim” e não “rir comigo”. Para cada situação cotidiana, era possível buscar uma máscara e poder se safar, entendes? Imagine uma criança, na sala, assistindo TV, junto com todo o resto da família, e tem um homem gordo vestido de mulher, com uma mãe bem magrinha, dizendo “Em pensar que eu saí dessa barriguinha”. Claro que não havia saído, era óbvio. Mas todos riam como se isso fosse possível de se ver na rua. Claro que não, outra vez. Isso só se via nos programas da televisão. E isso eu fui entendendo. Ou seja, o lugar mais seguro e livre, para se ser quem quiser e poder imaginar-se em qualquer situação rizível, era na ficção. A realidade era bem outra. Mas é de tanto rir dos dramas, e colocá-los nas praças, terreiros e esquinas, que aprendemos a nós adaptar. E foi isso que eu fiz. 

Naquela época era bom ver as emissoras competindo com programas para cada vez mais ousados e sofisticados, para manter uma audiência impactada, motivada e absorvendo todas aquelas marcas e produtos dos reclames, ou melhor, intervalos comerciais! A risadaria, comia solta e assim como todos as personagens de Jô, vinham as criações de Os trapalhões e de Chico Anysio e de Chacrinha, e suas Chacretes, com tiradas e piadas recheadas de ironias, jogos de palavras, duplo sentidos e ambiguidades. Quando esses momentos eram apreciados? Em nossas folgas, ora! Quando ninguém está desenvolvendo nenhuma atuação social, nem estudando e nem trabalhando. Na folga. Lembro-me de ficar tardes e noites vendo, como aquelas personagens tão malucas, preenchiam nossas vidas, e eram sempre imitadas em rodas de conversa. Porém, bastava olhar de lado, nas cenas reais, a falta de espaço para as gargalhadas. Nos momentos da folga, assistindo os programas humorísticos, o contexto sociocultural com rigores ditatoriais, patriarcal severo, em que se prendiam as cabritas e libertavam-se os bodes. Em que o homem não chora e a mulher era preparada para um casamento, de preferência com algum parente em segundo grau, ou amigo da família, ou com patente. Em que faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Naquelas poucas horas, as gargalhadas uniam e salvavam. 

Era a nossa folga, em estados de “folgazões”, rindo juntos e por breves instantes, esquecíamos  da violência doméstica, dos castigos, do alcoolismo, das competições financeiras por posses, ou luta por um carinho espontâneo. Olhando para a telinha e brincando seu próprio drama, todas as mazelas eram abrandadas, com todos sentados à frente da televisão. Para mim tornava- se mais fácil usar uma analogia daquela figura travestida e multicolorida da tela, que usar minhas vivências para sanar uma injustiça, por exemplo. O que se via era uma transformação cultural que se estabelecia, criando novos olhares e leituras. Nem todos percebiam isso, eu sim. As sketches iam para o nosso dia-a-dia escolar ou na rua de casa. Comentávamos se teríamos ou não coragem de nos vestir como Bô Francinete, ou o que gostaríamos de ser Rei, ser Rei, ser Rei! E imaginar o que faríamos se tivéssemos aquele poder. E se alguém fosse gay, já que havia um Capitão Gay? Questionávamos até as cores de nossas fardas escolares que (em Recife era como chamávamos uniforme), sempre azul, verde escuro, vinho, ou marrom. Tão sem graça. 

Assim, leitora, leitor, hoje dei-me a liberdade dessa narrativa livre, em primeira pessoa, e mudar de assunto e falar da mesma coisa. E enfim, homenagear a comicidade brasileira, devido ao valor que não só tem para mim, como assinatura de multiartista, mas para tantos do povo Brasil. Lembrando que nossos folguedos são brinquedos que bebem da fonte da sátira, da farsa, da pantomima, da tragicomédia e dos paradoxos socioculturais, em que as personagens são caricaturas de comportamento social completamente divergente daquele recorte histórico que o originou.  

Nesses brinquedos, com fazeres e saberes libertadores, preservam-se as tradições, compõe-se um espaço de cura, e organiza-se o processo de adaptação. Nas brincadeiras, povos e nações estão juntas, em família, em processo circular ou cortejo. A mente, o corpo e o meio social brincam pelo todo-ancestral. É um sacro-ofício, em que as tensões são aliviadas, a dureza da vida da Mata, do Agreste, do Sertão, Cerrado, mangues, do Litoral, dos morros e das comunidades, é mais fácil de se levar a diante. O brinquedo é, e sempre será, o respiro certeiro.  Somos assim, da festa, da alegria, em essência. Rápidos e matreiros na irreverência. Uma “Misturada” de nações africanas, indígenas e ibéricas. Drama e comédia unidos por Linha 10. Um eterno duplo sentido, multicolorido, assim como Jô. Até mês que vem. 

 

Que bom que tu chegaste até aqui! Assim, um “aperitisco” (aperitivo + petisco): 

O LINE-UP DO CÉU 

TÁ MAIS RISONHO E BRILHANTE 

CHEGOU AGORA UM GIGANTE 

PRA FIGURA E PRO PAPEL 

QUE DA PEDRA TIRA MEL 

FAZ DIVERTIR AOS MILHARES 

SALVE NOSSO JÔ SOARES 

NO PALCO, CINE OU TEVÊ 

FAZ O POVO SE ENTRETER 

BEIJA CHICO, QUANDO ACHARES! 

 

MRCL 07-08-2022

28 jul

Sonoridades

É o pássaro, é o vento, é o barco que navega,
É o moço que rápido caminha e ofegante transpira.
É o cachorro que na porta da vizinha late e desperta o latido dos cães vizinhos.
É o carro que buzina, é o homem do carro do ovo avisando que está na sua rua.
É o canto do galo que não vive no campo, mas, desperta quem o escuta, ainda que seja no meio da tarde.
É a gritaria das crianças passando na frente de casa, indo para a escola;
É o espirro que anuncia uma possível mudança de tempo.
É o borbulhar da água fervendo batendo no café anunciando o afago que o paladar logo terá.
É o estalo do beijo mais puro e sincero recebido das crias;
É o sussurro carinhoso do seu amor ao pé do ouvido, que arrepia da cabeça até a ponta do pé.
É o tocar das ondas do mar na areia, levando e trazendo poesia a todo momento.
É o coração batendo forte, revelando a imensidade da vida em movimento e sonoridades.

19 jul

Lembrança ao dia 25 de julho

Esse mês de julho é dedicado à luta e resistência da mulher negra, latino-americana e caribenha. À você mulher negra ou descendente, nossa força está crescendo e cada vez somamos mais, mais e mais!

Hoje somos resistência
orgulho-me desta raça,
que tem a força e a garra
há quem ache uma desgraça,
ser preta ou ser descendente
mas meu gene é contundente,
e a tua etnia abraça.

Honramos as ancestrais
lutando contra opressão,
nossas forças são escudos
repelindo a proibição,
e por sermos minoria
tratam-nos com valentia,
por temerem nossa união.

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