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02 fev

Vem teodorar!

Olá amores e amoras, que gostam de literatura de cordel. Essa coluna tem como foco lhes apresentar obras escritas por mulheres. Os cordéis indicados são escritos por parceiras e por participantes do nosso coletivo. Falaremos também das nossas publicações coletivas, que são: Justiça Violada, Mulheres Negras que marcaram a história, Mulheres indígenas que marcaram a história, Pagu- mulher revolução, Maria das Neves Batista Pimentel- a mãe do Cordel e Minha voz ecoa grito, da minha ancestralidade-sabenças das Teodoras. Mas, antes da nossa dica de leitura, convido vocês a cantar conosco essa cantiga que escrevi, para narrar um pouco da história de nosso coletivo, que nasceu em 2020 e segue fazendo verso e cuidando do Cordel, patrimônio imaterial brasileiro.

Vem teodorar
Vem teodorar

Nessa terra paulistana
Na arte que dela emana
Vamos juntas verserjar

Vem teodorar
Vem teodorar

Fazer verso bem feito
Assim do nosso jeito
Para o Cordel salvaguardar

Vem teodorar
Vem teodorar

A mulher é nosso mote
Nossa arte é suporte
Para o mundo enfrentar

Vem teodorar
Vem teodorar

Cultivamos a cultura
Fazemos literatura
Nossa arte é secular

Vem teodorar
Vem teodorar

Somos mulheres da arte
O Cordel é o estandarte
Que vamos exaltar

Vem teodorar
Vem teodorar
Agora que teodoramos, vamos a dica de leitura:
Minha voz ecoa grito, Da minha ancestralidade- Sabenças das Teodoras ( Editora Selo Pé no Chão)

Sobre a obra:
As mulheres contam histórias há séculos, em volta das fogueiras, ao lavar roupas ou cozinhando, em seus afazeres cotidianos as narrativas vão se entrelaçando a vida. Só na era do Iluminismo foi permitido que elas entrassem nesta seara do conhecimento. Apesar das restrições de acesso à leitura e à escrita, a mulher sempre foi parte importante da história da literatura, seja, como vilãs, heroínas ou bruxas, sempre descritas pelo olhar do homem. Foi assim que o mundo conheceu a icônica Sherazade que com sua narrativa eloquente e fascinante conseguiu romper com um ciclo de violência. Essa personagem lendária advinda do livro ”As Mil e uma Noites”, uma das mais famosas obras da literatura árabe, faz parte das poucas heroínas criadas por homens, que 3 edifica a sabedoria feminina. Apesar de algumas personagens serem idealizadas de formas positivas pela sociedade em livros clássicos, precisa-se também acessar a literatura pela voz da mulher, sem idealizações negativas ou com exageros de qualificações.Precisamos dar lugar de fala a quem vive na pele o que é ser uma mulher, apenas um ser humano, que erra ou acerta, dona de suas escolhas. E inspiradas por histórias de mulheres reais como a primeira cordelista brasileira “Maria das Neves Batista Pimentel”, ou personagens da literatura como Sherazade e a sábia Teodora, ecoaremos em nossos versos as sabenças familiares que nos inspiraram com sua força, originalidade, garra e vontade de transformar o mundo.
Boa leitura e vamos Teodorar, pessoal!

Abraços,

Lu Vieira – escritora

26 jan

Conexão feminina na Literatura de Cordel

Teodoras do Cordel Artevistas de São Paulo, casulo de escrita para mulheres, espaço de transformação e continuidade da história do Cordel. Cordel literatura brasileira que conta o ontem e o hoje, com primazia e respeito à originalidade do povo brasileiro.
Em 2025 estivemos em espaços importantes para literatura como o projeto BiblioSesc que leva livros e afetos para lugares longínquos da cidade de São Paulo. Também participamos da FLIP 2025, como convidadas dos parceiros Cordel Cantante e no palco do Sesc Santa Rita apresentamos os versos do nosso mais recente lançamento ” Minha voz ecoa grito Da minha ancestralidade-sabenças das Teodoras. Fizemos uma linda apresentação no Sarau Palavra de Mulher da Editora Feminas.
Tivemos um ano movimentado, com excelentes projetos, muitas parcerias e transformações. Nosso elenco se reestruturou ,mas o propósito segue firme.
Estamos em constante processo de escrita e dispostas a alçar novos voos.
Nosso lema é espalhar versos de cordel por todos espaços, garantindo em cada publicação pautas que anunciem e evidenciem a mulher e suas conquistas.
Fomos agraciadas com lindos projetos neste ano que se finda. E reafirmamos aqui nosso compromisso com o Cordel patrimônio imaterial brasileiro e com as pautas femininas.

“Cada passo que me leva
Em direção ao futuro
Me mostra que é seguro
Dar as mãos a quem te eleva
Ser mulher que não releva
Despeito e desigualdade
Luto com capacidade
Escrevo, logo reflito
Minha voz ecoa grito
Da minha ancestralidade”

Obrigada a quem esteve conosco e damos boas vindas as novas parcerias.

Um abraço afetuoso!

Lu Vieira, Teodoras do Cordel Artevistas SP.

09 out

Carta de lançamento do meu novo site

Por que estou lançando um site?

Durante minha caminhada, já criei protótipos de espaços virtuais com o desejo de apresentar meu trabalho artístico de forma mais estruturada. Sempre senti que minha arte poderia ir além, alcançar mais pessoas, e também expressar uma formalidade profissional.

Com os convites para participar de palestras e oficinas — que são ao mesmo tempo desafiadores e muito prazerosos — surgiu a necessidade de organizar tudo de maneira mais visível, interativa e acessível.

Em outras tentativas, tentei criar páginas para comercializar meus livros, algo que já faço pelo WhatsApp e Instagram. Mas faltava um espaço que reunisse essas vendas e, como fui eu mesma quem fez, não tinha o conhecimento técnico necessário para criar uma navegação profissional e que abarcasse outras pontas.

Agora, com esse novo site, consegui reunir tudo: os livros e cordéis à venda, fotos de atividades que participei, descrições detalhadas das palestras, oficinas e apresentações artísticas, links para minhas músicas nas plataformas digitais, agenda de eventos e muito mais.

Além disso, integrei a coluna que mantenho no site das Teodoras do Cordel, onde publico poesias, críticas, prosas e outros textos. Com isso, também fortaleço o coletivo feminino, divulgando e ampliando nossa voz.

Este site nasce como um apoio para divulgar ideias, conhecimentos e experiências que desejo compartilhar com todas e todos vocês.
Agradeço especialmente à Juliana Vitória, da marca VT Digital, pela direção e construção do site. Ela acolheu cada sugestão minha e trouxe ideias que deixaram tudo com a minha cara.


Aguardo sua visita com carinho!

Acesse: https://mariaclarapsoa.com.br/

19 ago

Bodas de Ouro em Poesia: Um Cordel de 50 Anos de Amor

Fui convocada para um trabalho muito especial e que particularmente amo fazer: transformar uma história de amor de 50 anos em poesia.

Ana Carolina e Fábio, nora e filho do casal Val e Reinaldo, me procuraram com uma ideia linda e original: presentear os dois com um cordel feito sob medida, celebrando suas bodas de ouro. Um presente único, cheio de afeto e significado.
Com muito carinho, mergulhei na história desse casal inspirador e escrevi em versos de 36 estrofes em septilhas, o que foi vivido com amor, resiliência e companheirismo ao longo de meio século.

O cordel ganhou vida em uma grande placa, entregue como surpresa no dia da festa. E que surpresa! Teve riso, teve lágrima, teve emoção transbordando por todos os lados.

Agora, essa trajetória de amor está registrada em poesia e exposta para que filhos, netos e as próximas gerações possam se inspirar na força desse laço tão bonito.

Val e Reinaldo, obrigada por me permitirem contar essa história. E a Ana Carolina e Fábio, obrigada pela confiança nesse presente que, com certeza, ficará marcado para sempre na vida deles e na minha também!

Confira abaixo, um trechinho dessa história que escrevi com muito carinho!

Era uma vez uma história
Daquelas de inspirar
De Reinaldo e Valdelisa
Um amor de encantar
50 anos de história
Tatuados na Memória
Um amor além do mar!

Há muitos anos atrás
O Reinaldo se encantou
Por uma moça faceira
Que do nada ele “topou”
Reluzia como a lua
Jogava vôlei na rua
Seu coração disparou!

Na cidade de São Paulo
Bairro Planalto Paulista
Ele voltava da escola
E investiu na conquista
Despertando algo a mais
Em encontros causais
Tardes a perder de vista!

Ele tinha dezesseis
Ela treze, uma menina!
Mas paixão já despertava
Acendeu-se a lamparina
O cortejo do rapaz
Sua investida sagaz
Brilhou como purpurina.

No ano de Sessenta e sete
O pedido de namoro
No portão da casa dela
Coração batia em coro
Tudo fluiu em firme tom
Mas, beijar que era bom
Demorou, haja decoro!

Só depois de quatro meses
Que o beijo aconteceu
No escurinho do cinema
Tão ágil, como Orfeu
Lembrou de conselhos sábios
Reinaldo beijou os lábios
Da amada, um apogeu!

Ele, muito extrovertido
Ela, jovem sonhadora
“WONDERFULL WORLD” era
Canção unificadora
Desses jovens namorados
Que seguiam animados
Paixão avassaladora!

No ano de Setenta e três
O noivado acontece
Bem na casa dos pais dela
Todo mundo comparece
Pais do noivo solicitam
A mão da noiva e incitam
A união pedida em prece…

28 fev

Predadores de Almas

Fevereiro passou voando e abocanhou meus dedos, como as gaivotas de Haia, quando estamos distraídos com um sanduíche de arenque nas mãos, nos arredores do parlamento holandês.
Meus dedos continuam aqui, porém feridos pelas bicadas famintas daqueles que não deveriam ser predadores de humanos.
É desta forma que percebo minha alma, por vezes abocanhada ao ter contato com determinadas pessoas.
Não são as chamadas pessoas tóxicas, tão em voga na contemporaneidade, mas são indivíduos que por vezes emitem comportamentos dúbios, eu não diria indecifráveis porque há a possibilidade de constatarmos a intenção por de trás de diversos gestos, contudo ambíguos e sedentos de controvérsia.
Eu apenas observo, vez ou outra interajo sem que necessariamente intente em acatar alguma carga da negatividade que exaspere de uma língua afiada (e quase bífida), a destilar seu veneno, eu não diria mortal, mas certeiro.
Sim, somos seres falhos e confusos, e mesmo que minhas mazelas insistam em me empurrar buraco abaixo, venho trabalhando a escuta seletiva, na realidade eu substituiria “escuta” por “interação”, pois herdei a boa audição de minha avó paterna e a perspicácia de negociação de minha avó materna, de modo que escuto, mas reluto em absorver o fardo que chega a mim.
Mas ele chega, imponente e entrão. E eu mentiria se dissesse que este pessimismo exacerbado e reclamão na verdade não me afeta.
Porém, sigo dia a dia, olhando mais adiante, buscando tirar esta minha autoestima flutuante de sua corda bamba e estancando os jorros das feridas de meu coração.

Bora de poesia, para afagar a alma e acalentar o coração dentro do peito,

Vez ou outra, no escuro
Na garganta sinto um nó
Quase vou sentindo dó
Deste lado obscuro
E persisto, eu me procuro
Vou buscando o “eu” contido
Mesmo sem fazer sentido
Eu insisto em me encontrar
Para me fazer lembrar
De meu coração partido.

Um abraco,
Graziela Barduco

28 jan

Simples Assim…

A vida costumava ser sórdida, quando eu me depara com os atropelos constantes do dia a dia, que, para baixo, insistiam em me arrastar. Nos últimos dias eu estava simplesmente buscando um assunto qualquer, sobre o qual eu pudesse escrever neste artigo, desta minha coluna que é de denúncia, desabafo, desafogo e alívio das mazelas da vida, bem como um espaço para colocar as dores em palavras, em busca da cura através da poesia. Porém, pela primeira vez na vida, eu não tenho absolutamente nada do que reclamar. E é tão, mas tão estranho e surreal estar bem e feliz, que é algo que chega a me incomodar (pronto, achei do que reclamar), mas é simplesmente bizarro não estarmos preparados para a chegada de uma vida plena, embora seja para isso que batalhamos desde que começamos a respirar.
Acredito que a maturidade está aos poucos me trazendo a calma da qual eu precisava para não me desesperar. O ritmo da respiração que eu precisava para não ter crises de pânico. O desapego pelo que é supérfluo, ou fora do meu controle, que eu precisa para permitir-me não deprimir. E claro! Os anos de terapia tão necessarios para que eu pudesse finalmente aprender a lidar com minhas fraquezas, falhas e vulnerabilidades. E assim é a vida. Assim está a vida. Assim gira a vida. De modo que, as voltas que ela dá, uma hora passam a nos embalar, nos trazendo paz e serenidade para, cada qual, em frente continuar.

E bora de poesia!

Adentrei com intensidade
Sob a luz de outra estrada
Pois pensei, tão desastrada
Que pra mim pesou a idade
Mas descubro a habilidade
De sentir-me desprendida
Quando o fim virou partida
Pra diversos recomeços
Sem temer tantos tropeços
Para assim gozar a vida.

Feliz 2025!
Com carinho,
Graziela Barduco

27 nov

Alma a Escorregar

Depois de anos e anos de psicoterapia, análise, e autoanálise, duas questões-chaves passaram a permear meus pensamentos:

Por que temos o costume de carregar o eterno fardo da inadequação, da falta de encaixe, do sentir-se deslocado, se tal questionamento, em verdade, diz muito mais à respeito do meio no qual vivemos e não sobre nós mesmos, meio esse que tenta promover uma constante homogeneização, sem esforços para buscar enxergar as sutilezas, particularidades e peculiaridades de cada indivíduo?

E sobre a tristeza de sentir-se o tempo todo desagradando o outro, ou simplesmente não agrando esse outro: por que tal situação nos pesa demais, se isso, na realidade, diz muito mais sobre o outro em questão e não sobre nós mesmos?

Partindo de tais indagações, preciso, a priori, apontar o fato de que é sabido que somos seres falhos e permeados por incongruências, e isso é intrínseco ao ser humano.

No entanto, atribuir para si todo e qualquer fracasso detectado, anistiando o contexto histórico e cultural no qual estamos inseridos, bem como o “outro” das relações interpessoais, ou seja, aquele com os quais nos relacionamos, é base e estofo para qualquer teoria de autofragilidade, baixa autoestima e autoinadequação, dentre outras características as quais permeiam as moléstias psicológicas que nos rondam com afinco, na penosa contemporaneidade.

Dessa forma, através dessa micro reflexão, fica aqui o alerta-proposição: vençamos, com discernimento e prudência, tais barreiras provedoras da autossabotagem, que incessantemente nos coibem a fruição de uma vida plena e, sobretudo, sem amarras coibidoras.

E bora de poesia:

 

Alma que Escorrega

Cavando, a procura da tal razão
Nem senti a alma me escorregar
Não sei bem o que queria provar
E no poço fundo, fui de encontrão
Sabendo que estava na contramão
Ali, reergui na luz do horizonte
Mesmo sabendo que estava defronte
Daquilo que outrora fora loucura
Porém, ainda assim, eu tinha estrutura
Pra não querer mais pular dessa ponte.

 

Com carinho,
Graziela Barduco.

 

 

02 nov

TUDO JUNTO E MISTURADO

TUDO JUNTO E MISTURADO

O Dia dos Mortos parecia muito vivo. Ela lembrava das tradições das histórias dos causos, de tudo o que tinha escutado por sua parentada, pelas crianças da rua, pelos velhos na feira, pelos artistas nas praças, a partir de sua janela, por de trás da porta. Todas essas histórias remontam ao passado mas que de repente, em um passeio utópico, distópico, em uma ruptura com aquela realidade, aquele mundo sofredor, aquele mundo de tristeza, aquele mundo da invisibilidade, parecia ser a saída para mantê-la viva. Aqueles momentos de engolir o choro, sustentar as pancadas, suportar opressões, de sofrer por um cegueira íntima que reverberava no social, ao ponto de não se enxergar o que está claro à sua frente, e que naquele momento, desenhava um futuro.

Afastando-se de tudo isso e de uma realidade indesejada, seu momento é  tomado por luzes, matizes salvadoras e ondas de energia que seguem organizando-se e estruturando um cenário especial. Nesse, aqueles que vivem nas memórias dos vivos e nas lembranças saudosas, voltam a conversar, voltam para se redimir, ou até para tentar esclarecer, atitudes e comportamentos que, naqueles momentos passados, pareciam assertivos, mas cujo fim não justificou seus meios.

Os mortos começam a andar e perambular no salão fictício, animado por uma orquestra das mais variadas competências musicais nunca vistas. Personalidades tão significativas para o universo das artes , ciências e saberes variados preenchiam com suas criações e obras, o ambiente perfeito para dança dos desencarnados. Pela conotação da palavra, o encarnado remete ao vermelho, a cor primária da vida, matiz de tônus enérgico, preparatório, excitatório, do fugir ou enfrentar.

Em meio ao salão os tons harmonizam-se em paleta pastel. Mesas fartas dos melhores quitutes do mundo, figurinos, indumentárias e adereços privilegiavam um design de aparências surreal. Uma cena que revelava a mensagem expressiva daquelas personalidades que aqui na Terra, encantaram e ainda encantam o imaginário coletivo.

Mas ali, diante dos olhos Dela, todos desencantados e com feições pálidas não reprimiam sorrisos, abraços, flertes e sátiras. Exibiam uma alegria volumosa, comportamentos eufóricos, abruptos, um tanto até descoordenados, como se toda a primazia dos movimentos e pensamentos, fosse deixada de lado, em prol de uma fruição de atos exagerados e liberatórios. Como um resgate, uma retomada de memórias de expressões antes vividas, um tanto esquecidas e que precisavam transcender naquela realidade fantasmagórica em gestos hiperbólicos.

Os rostos que ali transitava passeava pelas mais diversas manifestações da capacidade intelectual humana, capacidade corporal do ser e da espiritualidade. Não era um baile comum. Personagens ali que em vida nunca em tempo-espaço poderiam estar convivendo, trocavam ideias como se fossem amigos íntimos, com diferentes experiências para compartilhar.

Revelam-se então novas saídas, conquistas e soluções para fórmulas e situações nunca antes sintetizadas. O encontro dos titãs potenciais desenvolvedores da experiência humana neste planeta, reuniam-se ali conversando sobre o que foram, o que fizeram e de como poderiam colocar de volta, as peças que foram perdidas e ajustar os parafusos dessa engenhoca que é a comunidade da vida. Ela escutava tudo e ia aprendendo a cada enfrentamento.

Quem eram essas pessoas? Ela percebe que não eram necessários nomes, não era necessário saber se na lista constava Fulana.  “Olha ali Beltrano”, “Ai como eu sempre quis dar um beijo em Sicrana”. Um som animalesco chega aos seus ouvidos e grita: “Chega!”. Ela entendeu que o mais relevante era perceber a necessidade viril dos presentes em buscar uma resposta para todos esses anseios que se concentram no egoísmo, na auto centralidade, na ruptura de interser e que seguem criando camadas e camadas de questões distanciadoras da própria verdade. Perpetuam-se trocas injustas, por vezes fundamentadas em valores e princípios morais universais, em que não percebem, ou pouco se importam com a clareza do todo e a coerência de entender-se como tudo também.

Aquelas pessoas mortas, gigantes em seus fazeres e talentos, que nesta Terra deixaram suas proezas e exemplos da importância da preservação da vida como a unidade global, naquele instante entristeciam. Seus rostos pálidos empalideciam mais ainda. O ritmo da orquestra mais potente que existiu em todos esses milhões de anos planetários, reduz seu andamento, entra em disritmia e para totalmente. Os dançarinos mais fantásticos que antes elevavam-se do chão, em piruetas, trocas de passos, coreografias magníficas, os revolucionários do corpo, pouco a pouco seguiam à inércia. Os tons pastéis perdiam gradativamente a sua saturação.

As obras clássicas visuais, maravilhas do mundo, as criações mais significativas no contexto das artes visuais, plásticas e arquitetônicas, que por hora alimentavam as conversas, provocavam sorrisos e sátiras aguçando os humores, aos uns poucos apagavam-se. Em uma velocidade cada vez mais dinâmica e intensa, as mesas, comidas, mobílias, paredes e os ambientes empalideciam em conjunto, e todas as pessoas vão se dissipando, até que tudo se apaga, reinando a inércia total e um silêncio absoluto.

Ela paralisa diante daquele nada, diante do branco intenso. Uma brancura quase total, que a deixa um tanto cega. Ela fecha os olhos e sente a potencialização de todos os outros sentidos. Começa a escutar um som vindo de um ponto, no encontro das paralelas do horizonte. Abre os olhos devagar, percebendo que na perspectiva central algo se mexia com tons escuros. Os movimentos eram bem leves, lentos, e seguia criando uma forma espiraladamente hipnotizante. Ela percebe que o som assemelha-se a uma canção de ninar que a embala suavemente. Ela começa aos poucos a desenvolver um movimento tranquilo com braços e passos, deslizando por aquele ambiente branco de chão macio, tentador ao ninar.  O som aproxima-se cada vez mais, e a forma vai se comportando como figura até que Ela compreende a informação, e entende quem é. Catarina!

Às duas dançam e cantarolam várias canções memoráveis, nostálgicas, melancólicas, tão necessárias de serem cantadas em bom tom. Pés casados, Catarina seguia guiando-a por todo espaço, quando em um dado momento para. Retira de sua bolsa um pincel e um pequeno pote de tinta amarelo que entrega à Ela, dizendo:

– Tudo o que estás vendo, ou que pensas estar vendo, é vida. Tudo o que não estás vendo e que não é perceptível com a consciência humana, sou eu. Queres estar aqui comigo ou voltar?

Catarina se retira cantarolando e dançando seguindo ao ponto infinito.  Ela deita-se no chão macio e olha para cima, olha o nada e a branquitude plena ao seu redor. Levanta-se, respira fundo e começa a pintar nuvens.

 

Imagem: Livre manipulação de Folklorico La Catarina by Alexander Henry

 

 

29 out

A Sociedade do Apagamento

Vivemos tempos líquidos (Bauman não me reprenderia por este artigo).
Fatos são apagados, com a desculpa do esquecimento, pessoas são esquecidas, com a desculpa do afastamento, sentimentos são afastados, com a desculpa do isolamento, informações são isoladas, com a desculpa do arquivamento e assim a sociedade morre burra, sem histórico, histórias, memórias, pensamentos, inspirações, reflexões, conhecimentos, referências, caráter, dignidade e, sobretudo, sem essência.
A prática do apagamento é comum em muitas instâncias, principalmente nas relações sociais.

De acordo com Castro, Lofego e Oliveira apud Manske (2020):

“A história está presente em todas as ações do cotidiano, do ‘agir’ ao ‘esquecer’. Contudo, apesar de tal sanção se revelar verídica e presente em diversos pensamentos e campos do quadro social, notoriamente, o passado é atacado, silenciado e posto em dúvida. Seja para compensar erros estruturais, para administrar um novo curso em uma determinada sociedade, tal ação se reverbera pelos registros do passado humano, todavia, uma justificativa frequente para essas ditas ‘mudanças’, se trata justamente do silenciamento de corpos ditos ‘perigosos’ para o quadro de uma certa comunidade.”

E segundo Castro, Lofego e Oliveira apud Calegari (2005):

“Assim, vozes são caladas para que um pequeno grupo continue a gritar. O apagamento de identidades e o silenciamento de discursos que desafiam estruturas de poder se perpetua dentro de uma lógica que fere não somente tais corpos, mas toda a condição humana.”

Dessa forma, apagar é exercer domínio sobre o outro, bem como é submetê-lo inclusive ao seu controle, arbítrio e poder. É silenciar aquilo que não deseja ser ouvido, para que a lógica vigente, ou a lógica daquele que se faz comandante siga, sem interrupções. Assim agem os cerceadores, opressores e ditadores, promovendo o apagamento para alimentar o curso de seu poder.

Por vezes, vejo o apagamento aos meus olhos, à minha frente, acontecendo em tempo real. Vejo pessoas serem apagadas para outras se perpetuarem sobre elas, pisoteando-as, mesmo sabendo que elas ali existiram e se fizeram úteis e necessárias. Vejo histórias sendo apagadas para que outras histórias sejam impostas sobre as que de fato aconteceram, para que uma nova realidade seja empurrada goela abaixo, substituindo e extinguindo aquela que dantes aconteceu.

Por sorte, temos o artefato da documentação, que eterniza fatos, histórias pessoas, feitos, situações e afins, para que estes possam ser devidamente honrados e creditados por aquilo a que respondem e correspondem, já que a memória é fraca, mas o trabalho certamente foi árduo e não há que ser apagado, tão pouco o indivíduo labutador esquecido ou silenciado.

E bora de poesia:

Vejo sempre o apagamento
Da memória construída
Diligência instruída
Por mandantes do momento
Tudo é podre, cem por cento
Mas a luta segue ativa
Isso só nos incentiva
E dá força à resistência
Que batalha a permanência
Pra manter sua narrativa.

Sigamos,
Graziela Barduco.

21 set

Sobre Sonhos: uma outra dimensão.

Lençóis, na Bahia, mudou minha vida!
Foi lá que conheci pessoas maravilhosas, que me acolheram de uma forma como poucas vezes tinha sido acolhida. Foi lá que conheci grandes mestres e mestras do Cordel, sempre tão generosos, inspiradores e gentis. Foi lá que tomei coragem e decidi por fim que queria SIM fazer meu doutorado, ao ouvir palestras de pessoas tão incríveis e apaixonadas por aquilo que fazem. Foi lá que escrevi meus folhetos de Cordel mais recentes! E foi lá que vivi intensos e lindos momentos felizes!
Para chegar na Chapada Diamantina, saindo de São Paulo peguei um voo até Belo.Horizonte , e de lá, peguei um outro voo num aviãozinho assim pequenino, que até parecia de brinquedo.
Era o chamado modelo ATR-72-50, tipo peculiar de aeronave, que até então eu desconhecia completamente.
Me lembro que mandei uma foto que tirei desse avião, na pista de pouso, para meu irmão, e ele comentou comigo que, na ocasião, havia voado nesse mesmo modelo, no dia anterior, na Itália.
Enfim, a viagem nesse avião foi ótima, como bem pode-se observar na fotografia, que é do final de abril desse ano, que acompanha este artigo,
No entanto, no final de julho, eu estava em Juquehy, quando acordei desesperada, porque havia tido um pesadelo tenebroso, com uma aeronave como essa, na qual havia voado meses atrás.
No sonho, eu não estava nela, estava em uma estrada pequena, dentro de um carro, com João ao volante, e estávamos sem Davi.
E então um avião, que sobrevoava a região que estávamos, começou a cair exatamente como caiu aquele avião envolvido no desastre da Voepass, no início de agosto, fazendo exatamente a mesma movimentação. A mesmíssima movimentação! E começou a cair num local como o que o avião desse triste episódio com Voepass caiu…
Eu estava dentro do carro, olhando em desespero a cena, ao lado do local onde ele caia. Esse carro estava em uma estrada que levava ao local que, assistindo ao noticiário no dia do desastre, pude, atônita perceber, que era exatamente como o local onde se encontra esse condomínio, no qual o avião da Voepass caiu.
Detalhe: eu nunca estive lá.
No sonho, eu estava realmente em pânico e gritava que os escombros iriam cair sobre o nosso carro, e quando tudo de fato começava a cair perto da gente, eu acordei simplesmente desnorteada.
Ao perceber que era um sonho, me acalmei e aos poucos fui ficando tranquila, pois, a vida inteira, tudo que sonhei, sempre aconteceu ao contrário.
Mas misteriosamente dessa vez foi diferente. Infelizmente….
Foi como se de fato eu estivesse lá e tivesse vivenciado tudo em sonho, antes da história catastrofica acontecer, algumas semanas antes de tudo se suceder.
Como pode?
Acho que nunca vou saber…
Enfim, escrevo porque hoje me lembrei do ocorrido, ao ler no jornal uma matéria sobre as caixas pretas do avião da Voepass que caiu, e escrevo também acho que pra tentar exorciza todo esse sentimento ruim que focou em mim.
No mais, escrevo também porque estou em um voo, voltando pra casa.
Mas não se preocupe, caro leitor e cara leitora, já estamos a pousar e por aqui está tudo bem.
Sempre sabe-se quando tudo está bem.

E vamos de poesia:

No reflexo da vidraça
Me despeço da carcaça
Quase que meio sem graça
Eu entrei no avião

Da janela do embarque
Vejo além daquele parque
Você quer que eu remarque
O meu rumo a solidão

Eu aqui com a minha calma
Vou lavando a minha alma
Levo a vida em minha palma
Desafogo o coração.

Até a próxima,
Graziela Barduco

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