Dia desses, embalando minha menina mais nova em seu momento de soninho, coloquei uma das canções preferidas dela,
“Voo do beija-flor”, da cantora Elisa Cristal. Ouvi esta música em todas as minhas gestações e sempre me fez muito bem. Segui com o hábito, principalmente na hora de colocar as crianças para dormir. Percebi que na minha filha mais nova, Clarice, a canção tocou em um lugar muito especial.
Com seus dois aninhos de vida, recém completados, deitada em meu colo e acariciando meu rosto, unidas e entrelaçadas de amor, cantamos juntas o refrão: – Beija-flor, me leva. Beija-flor, desperta em mim…
No geral, a composição enaltece o amor, todos os seus mistérios mais profundos e tudo o que ele é capaz de despertar em nós. A música nos leva para uma outra dimensão. E agarrada ao cangote da filhote então, virou um momento imortal. Daqueles da gente lembrar nos últimos minutos da vida.
Em um dado momento, tudo foi ainda mais mágico. Percebi que, enquanto ela cantava a canção, lágrimas vieram aos seus olhos. Mas não eram lágrimas de choramingo. A impressão que deu, foi de ela ter se emocionado mesmo! E essa mesma emoção acontecia sempre na parte do refrão.
Deixei tudo transcorrer naturalmente durante toda a música. Ao final, abracei-a ainda mais forte e disse: – Isso que você está sentindo é poesia meu amor! Que ela te acompanhe para todo o sempre e te faça perceber o quanto o mundo é grande e ele cabe em seu coração. Basta você deixar que a poesia lhe toque, independente da circunstância. Um sorriso e um longo abraço: eis minha valiosa resposta!
Minha amada passarinha Que o poder da poesia Adentre em seu coração Irradiando a alegria Neste grande, vasto mundo Provando que o amor profundo É a maior sabedoria!
– Te amo sempre e para sempre! Sua mãe: Dani Almeida
Olá amores e amoras!
Março chegou trazendo inspiração e força para seguirmos demarcando nossos espaços, pois:
“O triunfo feminino
É raro e questionado
Quando assume liderança
Tem o posto contestado
Por ameaçar o poder
Deste tal patriarcado.”
Vamos celebrar a grandiosa conquista do Coletivo Teodoras do Cordel-artevistas SP, que terá suas obras expostas no Macc – Museu de Arte e Cultura de Caraguatatuba, na exposição “Mulheres-Artistas? Mulheres! Artistas!”. As obras expostas são de mulheres advindas de diversas frentes sociais e culturais. Além do Coletivo Teodoras, contará também com os trabalhos de Ana Pinheiro, Alice Dolfini, os coletivos Linhas do Mar e também da Sara Belz com ‘Corpo e Alma’, o público vai poder conhecer ou relembrar as obras de Sandra Mendes e Edna Lins (in memorian).
A exposição coletiva “Mulheres-Artistas Mulheres! Artistas!”, foi pensado pela Prefeitura de Caraguatatuba por meio da Fundação Educacional e Cultural de Caraguatatuba como celebração pelo Dia das Mulheres.
Estão em exposição no MACC, as obras das Teodoras, publicadas coletivamente como “ Justiça Violada”, “Mulheres Negras que marcaram a história” e “Mulheres Indígenas que marcaram a história”, na exposição o coletivo apresentará um pouco de sua história e seu percurso de empoderamento da escrita feminina em cordel, no estado de São Paulo, expondo também obras escritas por representantes do Coletivo.
Este grande marco para a história do coletivo encoraja nosso trabalho e fortalece nossa busca pelo enaltecimento do feminino, suas lutas e triunfos.
Me disperso, convidando todos a visitarem a exposição e alertando sobre a importância social de apoiar as lutas em prol das vidas de mulheres.
“Feminismo representa
Uma luta social
Por conquista de direitos
E uma sociedade igual
Onde a mulher seja vista
Como um ser racional. ”
Com carinho,
Lu Vieira
Serviço:
Data da exposição: dia 08/03 até 13/04
Local: MACC -Praça Dr. Cândido Motta, 72 – Centro. A visitação é de terça a sábado, das 10h às 18h. A entrada é gratuita.
Completando o título: “ou fingem não fazer ideia”.
E começo o texto indo direto ao ponto, até porque fazer rodeio é coisa deste tipo sobre o qual hoje venho falar.
Alerto também para o fato de que esta é a forma como penso “coletividade” e confesso que posso estar redondamente errada.
Pois bem. Quando você decide fazer parte de um coletivo, ao meu ver, a primeira coisa que você deveria saber é que seu pensamento individual não deve ser mais importante do que o pensamento em grupo.
Desta forma, o que deve prevalecer neste contexto, é aquilo que melhor vai atender e beneficiar o grupo e não a si próprio.
Parece algo óbvio, mas não é. Principalmente quando a essência do ser humano é a natureza egoísta. Infelizmente.
Dito isto, se você não tem uma predisposição para abdicar de algumas coisas em prol de uma maioria, por que diabos você decide fazer parte de uma coletividade?
Vou além. Se você guarda informações diversas que poderiam beneficiar a coletividade e usa todas elas somente para si, sem compartilhá-las com o grupo, por que demônios resolveu fazer parte de uma coletividade?
Ou ainda. Se você faz sempre questão de ser visto (a) como presente na coletividade, mas quando alguém precisa verdadeiramente de sua pessoa, você se finge de morto (a), se fechando em um profundo silêncio e sumindo num piscar de olhos, por que carambolas você insiste em fazer parte da coletividade?
Ademais, uma coisa eu digo. Se você simula fazer parte de uma coletividade para colher as informações desta coletividade e simplesmente se utilizar delas para fins próprios, sem realmente contribuir para com a coletividade, eu tenho um nome para isto: mau-caratismo.
E bora de poesia, para este tipo exorcizar?
Ao tentar desafogar
Tanta coisa de minh’alma
Sempre sem perder a calma
Procurei dialogar
Tanta coisa pra falar
Fui profunda e me abri
Contei tudo o que senti
Fui na busca do diálogo
Ao buscar por um análogo
Num monólogo caí.
Ao tentar ser agradável
Neste lodo me meti
E te juro, me perdi
Quase sempre tão instável
Num destino inexorável
Sufoquei, pedi socorro
Me esvaí e quase escorro
Ao doar-me pr’outro alguém
Minha alma, vai e vem
Desta forma, quase morro.
Eu tenho essa mania doida de SEMPRE responder a todos: “tudo bem sim, graças a Deus” e isso é tão, mas TÃO automático, e algo “bizarramente” incontrolável, pois acho que um simples “tudo” ou “tudo sim” soa um tanto frio, beirando a falta de simpatia a uma pergunta que, teoricamente, demonstra, no mínimo, algum ensejo de preocupação para comigo.
Enfim, o fato é que eu, já há algum tempo, não acredito em Deus, e se por ventura ele existir, ou melhor, Ele, como dizem os “tementes” a ELE (está aí um adjetivo que fez eu começar por não mais simpatizar por situações e discussões deste tipo), não está nem aí para a minha pessoa, de modo que eu tentar invocá-lo, fazer pedidos, preces, rezas e afins, para mim, não surte efeito algum, ou melhor, são palavras ditas ao vento.
Desta forma, ao invés de orar, optei por escrever poesia que, ao meu ver, seria algo que em mim surte um efeito mais positivo, além de acabar gerando situações mais produtivas.
Lembrando que esta é a MINHA visão pessoal da coisa em si e não uma verdade absoluta, bem como não procuro convencer ninguém de meu ponto de vista, nem busco ser convencida também pelo ponto de vista de ninguém.
Não creio que a questão seja falta de fé, pois tenho fé nas situações, fé nas pessoas (algumas, BEM poucas na realidade), só não tenho fé em Deus.
Se Ele existir, nunca me ouviu. Tudo que eu pedi, nunca aconteceu e quando finalmente desisti de tentar falar com Ele, é que as coisas passaram a acontecer. E certamente não por Ele, mas pelo próprio curso das coisas em si.
A questão é que eu simplesmente não tenho essas fantasias de que alguma força sobre-humana vai me ajudar. Eu simplesmente me levanto da cadeira e vou à luta, e sinceramente acho que é desse jeito que deve ser. Pelo menos para mim.
Mas respeito MUITO, do fundo do coração, quem pensa diferente.
E com esse pensamento de que somos livres para acreditar naquilo que desejarmos, seguem estes versinhos:
Minha fé já não é mistério
Não tem segredo, não tem critério
Da dor que vinha e que supero
Não sei se fico, não sei se espero
Com a brisa passando no rosto
Não tem tristeza, não tem desgosto
É carinho que chega e que fica
Bate na alma, corporifica.
Faz tempo que não apareço por aqui… muitas demandas, principalmente da finalização do meu doutorado, então estou dedicada a isso, rsrs… Mas essa semana fiz uma publicação em meu Instagram @mariaclarapsoa e minha colegas do coletivo Teodoras me incentivaram a elaborar mais aqui na coluna, uma grande ideia visto que o tema sobre maternidade, mulheres, crianças e carnaval tem tudo a ver com a gente.
Pois bem… Esse foi o primeiro carnaval (2024) que de fato curtimos com nossa filha em bloco de rua! Carnaval pra mim é tradição e de ótimas recordações. Desde sempre lembro de pular carnaval com meus pais e meus irmãos, e até hoje é costume nosso, além de passar para nossos filhos, sobrinhos a magia do carnaval.
Bloco dos Cão na Praia da Redinha em Natal-RN Ano 2002, eu sou a menor do meio com 8 anos
Carnaval é espaço de convivência, é aglomerado, mas também calmaria, ao mesmo tempo que tem bagunça, organiza nossos desejos e anseios, nos torna alguém que nos escondemos durante todo ano, nos permite ser quem somos, isso acalma nossa mente e coração.
Depois que tive filha o ritmo diminuiu muito! Ano passado pulamos um dia sem ela, e outro com ela em um bloco infantil, mas sem muita aglomeração. Esse ano nos propomos a nos aventurar, a ir pra rua mesmo, para ela conhecer o que é carnaval, mas também para curtimos, ela já entende muita coisa e está mais resistente ao cansaço. Fomos… escolhemos dois dias pra pular, domingo e terça, obviamente não conseguiríamos seguir o mesmo ritmo de antes mas foram dois dias bem alegres e Elis gostou muito, inclusive já falou que ir no carnaval de novo. rs…
No primeiro dia fomos ao bloco Samba Rock e Serpentina, concentração em frente ao bar da dona Tati, uma delicia de bloco, com bastante criança e livre para circulação ao caminhar nas ruas da Barra Funda! Próximo ano estaremos lá novamente…Em seguida no Bloco do Ilu Oba de Min, bem cheio, mas acolhedor para as famílias, tinha um espaço do cordão só para pais e crianças poderem curtir com tranquilidade.
Mas o que me indignou e me fez escrever esse texto é a diversidade do carnaval e infelizmente nem todos os espaços respeitam essa diversidade. Um espaço/evento que tem como proposta agregar, acolher, se juntar, diversificar, tem blocos que carregam só no nome essas palavras, mas a prática deixa a desejar.
Existem mães e pais que querem pular carnaval, e os blocos precisam pensar nessa condição. Fiquei bem decepcionada com o Bloco Pagu, o qual nos organizamos pra ir principalmente pelo seu significado, carregando o nome de Patrícia Galvão, grande mulher na história brasileira, e músicas de Rita Lee uma potência de mulher no Brasil. Inclusive recentemente as Teodoras escreveram uma obra em cordel riquíssima que fala de “Pagu: mulher revolução.” Contamos de toda sua trajetória de vida, seu caminho revolucionário, a primeira mulher presa na ditadura. Sim… fez história!
O bloco Pagu é bem estruturado, com bastantes seguidores e foliões. Banda maravilhosa, mulheres que passam firmeza no batuque e na voz, mas infelizmente não tem espaço para mulheres mães, um bloco que prega o feminismo, não acolhe nossas crianças. Não foi só uma pessoa da organização, foram várias que abordei para poder passar para o lado de dentro da corda enquanto o bloco se apresentava, como eu disse, estava bem cheio.
Vale ressaltar que a parte interna da corda estava muito vazia e bastante espaçosa, mas ouvi da produção “se formos deixar todas as mães com crianças entrarem?” Oxi, com a pouca quantidade de crianças que tinha, daria bem menos de gente que tinha dentro da corda. E ainda assim, pq não? Tinha muito espaço, além de nos sentirmos mais seguras. Depois fui em outra organizadora que tinha algumas pulseiras na mão, pois alguém tinha dito que só podia com pulseira, pois bem, ela disse que não podia fazer nada! Enfim, minha indignação é que o bloco que carrega o nome de uma mulher que tanto nos defendeu pode fechar os olhos e não fazer nada ao acolher pais e crianças? Nesse mesmo bloco encontramos algumas amigas, além do publico, foram super acolhedores, inclusive muitas pessoas vinham nos abordar pra pedir pra produção deixarmos entrar no cordão, não fomos só nós que nos iludimos…
Saímos do Pagu e fomos no bloco Agora Vai, outro espaço acolhedor. Elis dormiu no nosso colo, pulamos dentro da corda, além dos organizadores virem perguntar se precisávamos de alguma coisa. Um bloco com bem menos estrutura e tamanho que o de Pagu, sem mega produção e um espaço muito menor do cordão. De fato mostrou que inclui as diversidades do carnaval!
Nós três descendo no Metrô Santa Cecilia para pegar o Bloco Agora Vai (terça de carnaval 2024)
Enfim, essa é a diferença. Queria apenas fazer esse registro pra dizer: pais e crianças também curtem carnaval e é lugar de criança sim! Não podemos levantar só a bandeira, é preciso agir, feminismo sem olhar pra nossas crianças é só discurso…
O cordel tem muitas facetas a oferecer, pois reúne o poder da literatura popular, a ludicidade dos contos de fadas e a musicalidade da poesia. Na poesia escrita para as crianças, a temática que envolve animais é recorrente na história do cordel. E seguindo essa tradição apresento-lhes duas histórias, a fábula “O Pavão vaidoso” e conto de fadas “ Branquinha a cabrinha encantada”.
Histórias escritas pelas Cordelistas Edimaria e Daniela Almeida que uniram sua escrita e amor pelo carnaval- sinônimo de alegria, festa feita pelo povo e para o povo. As escritoras usaram seus conhecimentos, cultura e toda riqueza do carnaval para criar seus cordéis.
Edimaria em sua caixinha pocket Cordel, escreveu a fábula carnavalesca “O pavão Vaidoso”, uma história que defende os direitos dos animais. Fala de vaidade, de amor não correspondido e do carnaval através da magia da fábula, gênero que encanta e transmite uma moral. O contato com fábulas é importante para os jovens leitores, visto que o gênero oferece aos leitores momentos de reflexão.
‘Aqui nesta história
O pavão não é sagrado
É um bicho de beleza
Porém muito massacrado
Pela maldade humana
Ele é até maltratado. ’ (Edimaria)
No cordel “Branquinha a cabrinha encantada” de Daniela Almeida, ambientada no período carnavalesco, discorre sobre uma Cabrinha que foi enfeitiçada por uma Bruxa em um bloco de carnaval.
Muito alvinha e cabeluda
Tem o olho arregalado
É esperta e orelhuda
O seu nome é Branquinha
Gênio forte, cabeçuda.
Adora um carnaval
Dançar frevo na folia
Pula, brinca lá nos blocos
Até o raiar do dia
Na festa do rei momo
Nunca perde a energia. (Daniela almeida)
Ao fazer a leitura desta belezura de obra você irá se aventurar com a protagonista ‘Branquinha’ em uma grande aventura, com direito a bruxas, feitiços, lágrimas, heroísmo e um final maravilhoso. Ingredientes que não podem faltar a uma boa história para o público infantil. Leitores que se encantam com histórias bem escritas, com personagens fortes, muita inventividade, musicalidade e adoram solucionar conflitos através do poder da magia e da bondade.
As crianças precisam ter acesso a leitura de cordéis, gênero que tem tradição em considerar os interesses da infância em suas obras.
Portanto amores e amoras, leiam cordéis para as crianças e descubram juntos o poder da brasilidade cordeleana. Pois infância é:
‘Berço da ludicidade
Encanto e conhecimento,
Infância é sapiência
Necessita entendimento
Pra reinventar o mundo
Com belezura e talento. ’ (Lu Vieira)
Para adquirir as obras indicadas sigam:
@edimariacordelista- O Pavão vaidoso
@danialmeidacordel – Branquinha a cabrinha encantada
Em “um passeio no mundo livre”, inspirada nos versos do saudoso Chico Science, convoco a reflexão do MOVIMENTO, afinal, “basta um passo à frente para não estamos mais no mesmo lugar”, não é mesmo?
A impermanência da vida, naturalmente nos convida para NOVOS PASSOS, mas a pergunta que não quer calar é: quanto tempo somos capazes de protelar tal chamamento? A permanência em caminhos já conhecidos parece tão confortável! E mesmo quando não é, tem momentos que, aquilo que chamamos de CORAGEM, parece mais ter sido abduzida da gente por um disco voador. E aí? Sair do sossego ou aceitar o chamado à aventura? Ou vice-versa?
Na obra “Sissi, A Maria Farinha”, a escritora Edimaria utiliza da linguagem do cordel e da contação de histórias para apresentar as peripécias de um crustáceo que já não aguentava mais viver no sossego de uma praia linda e calma. O crustáceo em questão, é uma Maria Farinha, um tipo de caranguejo de carapaça quadrada e de coloração branco- amarelada. Sisi, como é chamada no livro, aventurou-se em novos mares. Saiu da sua linda morada em Pernambuco e resolveu explorar novos mundos. Para sua surpresa, foi parar em cima do asfalto, na ladeira Porto Geral, em São Paulo. Tentando fugir do tanto de gente que quase a pisoteava, ela foi parar numa boca de lobo que a levou direto para o Rio Tietê.
Eita que mundo estranho e esquisito! Mas, em quantos momentos não nos sentimos assim, deslocadas, igual a Sissi?
Nesta obra lúdica, poética e inteligente, podemos mergulhar junto com a personagem principal, para dentro de nós mesmos. É possível perceber, o quanto os nossos movimentos podem revelar conhecimentos que não teríamos a noção da existência se não tivéssemos saído do canto.
Como música boa de ouvir, e que tão bem são apresentadas por Edimaria (que além de ser escritora, cordelista e poetisa, é cantora), é preciso sentir os acordes, os ritmos e os tons. Ser feliz é a busca óbvia que obviamente não durará para sempre, mas sempre, pelo tempo que nos couber SER até o próximo chamado à aventura do movimento.
Visite o perfil EdiMaria Cordelista no Instagram e conheça esta e outras obras da autora.
Perceber a sutileza das crianças em suas inumeráveis formas de brincar é como deitar em um chão fofinho de areia e tentar contar as estrelas do céu numa noite sem nuvens. O brincar livre, algo tão natural para as crianças, infelizmente ao longo dos tempos tem sido um direito cada vez mais negado. Para alguns adultos, resta jogar a culpa às telas do “mundo moderno”. Mas, será mesmo, este o principal responsável? Já parou para pensar em qual momento do dia você se dedica a sua criança interior? Que ela está aí, pertinho de você, no centro do centro do seu coração e você simplesmente pode estar negando a existência dela? Como podemos pensar nas crianças que nos cercam, se nem ao menos temos consciência que a nossa criança interna implora por uma brincadeira livre? É fato, precisamos reaprender como se faz isso.
Como uma boa professora, mas acima de tudo, uma brincante na vida, Lu Vieira traz em seu cordel sextilhado, na obra “A Criança e o Brincar”, caminhos poéticos para atingirmos a singela meta que toda criança tem: brincar.
A autora apresenta com muita ludicidade, o passaporte para a liberdade que também rima com felicidade. Como ser leve e tornar o sofrimento breve. Como não protelar questões desnecessárias, ainda que haja rusgas no caminho a serem combatidas, mas também, como é possível rapidamente fazer as pazes, viver em comunhão. A não definir talento por gênero ou cor preferida. Como colocar vida nas situações, reconhecer o pensamento mágico e animista da criança e a interagir com ele. A infância está dentro de nós, ainda que na própria infância esse direito tenha sido negado, mas, as ressignificações são sempre possíveis porque a todo momento, a vida acontece. Para a criança, tudo tem alma. E tem mesmo! Basta emprestarmos ela para o que quer que seja.
O livro, “A Criança e o Brincar” nos leva para essa verdade. Para este encontro humano com tudo que temos direito, inclusive, com permissão para jorrarmos, o quanto quisermos, nossas “águas de choro”, esse termo tão fofo e poético criado e falado pela minha filhinha de três anos, Ester Luz, para descrever o que no cotidiano chamamos de lágrimas. Um viva a poesia das crianças, a infância e o brincar!
Visite o perfil da autora em @ler_mulher e conheça esta e outras obras de Lu Vieira.
Na coluna de hoje partilho com vocês um pequeno desabafo, fruto da minha vivência no mundo do Cordel. Gênero literário que apesar de ser conhecido pelo povo brasileiro ainda é pouco estudado nas escolas e universidades. Devido a isso sofre muitas distorções desde sua origem, conceito e produção.
“O Cordel é poesia
Um bem imaterial
Joia rara do Brasil,
Tesouro nacional
Deve ser apreciado
Pois foi nomeado, como:
Patrimônio cultural !”
Lu Vieira
O Cordel apesar de ser uma poesia brasileira, ainda é desconhecida ou tratada como literatura menor pela grande maioria dos leitores e produtores da literatura neste país. Sua importância está em ser um patrimônio cultural brasileiro que narra com maestria a história do nosso povo. É poesia viva alimentada pela realidade de quem escreve em vários cantos deste país. Tem uma estrutura fixa: métrica, ritmo, rima e oração. Não se limita, ao contrário, possui um vasto repertório de temas, como: crítica social, estrutura econômica, política, religião, cultura, ecologia e questões de gêneros. Tem como missão retratar a sociedade, seus avanços e retrocessos, através da sua singela e rica poesia. Que sabiamente opta muitas vezes por usar uma linguagem, tema e personagens que tem fácil acesso com o leitor que se reconhece na brasilidade do cordel.
Porém, quem trabalha com Cordel é sem dúvida um resistente. Pois não é bem quisto pela academia, ignorado pelas editoras, diminuído pela crítica literária e acusado de ser folclore pelos ignorantes (O folclore é tema recorrente do Cordel e símbolo de riqueza cultural, porém Cordel é literatura). Além de ter que ouvir que Cordel tem sotaque, que é feito por analfabeto…. E muitas vezes ser tratado como caricato nas feiras literárias. Mas, isso vai mudar, à medida que mais pessoas leiam nossa produção (que mesmo independente segue todas as normas de uma publicação). Já é chegada a hora de pararem de olharem a produção cordeleana como se fosse algo menor, apenas por ser genuinamente brasileira. É hora de aceitar que nós também produzimos cultura.
É uma tarefa árdua a nossa de artistas que muitas vezes atuamos como professores da cultura brasileira, temos que ensinar que Cordel é literatura, que mulher escreve, que povos indígenas e negro produzem conhecimento.
A sociedade precisa compreender que cultura brasileira é feita também, por artistas do povo, resistentes e solitários, que vivem em todos os cantos do Brasil. Nós escritores do gênero literário Cordel recebemos pouco apoio do sistema e dos que detém o poder sobre a literatura brasileira.
Esses fatores nos impactam, mas não determinam a nossa garra e vontade de contribuir para a literatura. Seguimos estudando, formando grupos de salva guarda da Literatura de Cordel- patrimônio imaterial brasileiro, clubes de leitura, simpósios, feiras de livros, apresentações artísticas e lançando obras independentes, mas seguindo a regulamentação legal.
Somos muitos e muitas neste país versejando a cultura. E a cada dia conquistamos pequenos espaços em Editoras que acreditam no poder da poesia e investem para além de um determinado ‘padrão’ literário.
Neste país temos um caso crônico de desamor a cultura, sobretudo aquela feita pelo povo e para o povo. É uma eterna sensação de ‘viralatisse’, chaga aberta da nação brasileira. Aquela que só enxerga como cultura algo importado e de preferência que não faça nenhuma referência a realidade social.
Para encerrar este texto apresento-lhes sugestões de leituras para ampliar nosso debate e estimular o estudo da história do cordel seu passado e sua realidade atual.
Leiam:
Livro -Histórias de Cordéis e folhetos de Márcia Abreu- Editora Mercado das Letras
Textos: Cordel é resistência- Graziela Barduco / Policiais ameaçam de apreender cordéis- Varneci Nascimento
Hoje venho compartilhar com vocês o que aconteceu com nosso grupo de cordelistas aqui da cidade de São Paulo, que resolveu se reunir na Avenida Paulista, no dia do aniversário da cidade, para comemorar os 470 anos desta metrópole que nos acolheu, cada um e cada uma vindo (a) de um canto diferente deste imenso Brasil.
Combinamos de nos encontrar de manhã e, como era uma manhã um tanto quanto chuvosa, o Sesc (que fica no cruzamento da Av. Paulista com a Rua Leôncio de Carvalho) nos autorizou a ficarmos em frente ao seu prédio, na calçada, porém abrigados sob sua marquise.
Assim que montamos nossas mesas, decoradas com toalhas de chita e terminamos de expor nossos livros de poesia e nossos cordéis, fomos abordados por alguns policiais, que diziam estar a mando da prefeitura, nos alertando de que não poderíamos ali ficar, porque, embora a marquise fosse do Sesc, a calçada pertencia à prefeitura, que não autorizava nossa permanência no local.
Tentamos dialogar e apontar o fato de que existia uma lei que respaldava o artista de rua sobre isso, ao que um dos policiais perguntou algumas vezes se sabíamos o número desta lei. Como não recordávamos do número da lei, ele seguiu como se ela não existisse e como se ele estivesse com a razão.
Eu passei a mão em meu celular e passei a procurar sobre a lei no Google.
Nesse meio tempo, meu companheiro, que é advogado, passou a dialogar com os policiais, tentando entender a situação.
Eles seguiram tentando nos impedir de estarmos ali no local com nossa arte e passaram a dizer que iriam apreender nossos livros e cordéis.
Neste contexto todo, já estavam no local 8 PMs e em seguida, 3 vans chegaram também para fazer a apreensão de nosso material artístico.
Liguei para uma amiga advogada e relatei rapidamente o ocorrido. Ela pediu para falar com a sargenta responsável pela ação policial para explicar sobre a situação, mas o consenso não se fez, assim como com o meu companheiro e os policiais.
Eu ainda continuei seguindo com a busca no Google, pela lei que iria nos respaldar e meu companheiro decidiu ir conversar com um dos responsáveis do Sesc, explicando o que estava acontecendo, pedindo por acolhida.
Eu finalmente encontrei sobre a Lei no Google, para poder mostrá-la aos policiais. Mesmo assim, eles não se mostraram dispostos a vê-la em seus pormenores, mas finalmente pareciam ter desistido da apreensão, já que as 3 vans, que ali aguardavam para levar nossos livros e cordeis, deixaram o local. No entanto não houve acordo com a sargenta sobre permanecermos no local, sendo que nós, poetas e artistas de rua, tínhamos (e temos) o total respaldo e direito de ali estar (inclusive vendendo nossas obras), de acordo com a Lei 15 776, sancionada por Fernando Haddad, conforme o link que disponibilizo abaixo:
De início, os policiais disseram que não poderíamos vender nossos livros e cordéis e que por isso eles seriam apreendidos, sendo que na lei diz exatamente o contrário.
Quando por fim conseguimos mostrar este trecho da lei a eles, questionaram a autoria de nossas obras.
Tirei meu documento, empilhei meus livros e pedi que a checagem do autor fosse feita com meu documento.
Na sequência, questionaram se o restante dos livros e cordéis das outras mesas pertenciam aos outros autores ali presentes.
Então eu gritei para meus amigos:
“Cordelistas, façam uma fila com seus livros e cordéis nas mãos e também com seus documentos para checagem com os policiais!”
A sargenta disse que “não precisava de tanto”.
Neste momento, o responsável do Sesc, vendo todo o ocorrido e o absurdo ao qual estávamos sendo submetidos, já que a Lei 15 776 estava sendo completamente ignorada pelas autoridades ali presentes, nos colocou para dentro, nos acolhendo em seu espaço.
E foi aí, quando não mais estávamos no “território da prefeitura”, já que estávamos para dentro do Sesc, é que os policiais repentinamente pediram “desculpas pelo mal entendido”, viraram as costas e evaporaram em segundos.
E assim a gente segue com nossa arte, existindo e resistindo, na certeza de que não vamos parar.
O cordel é resistência
Força intensa, sem igual
Arte pura, magistral
Vem da luta, a persistência
No meu peito, a minha essência
Toda armada de poesia
Me reforça todo dia
Pois com ela tudo enfrento
Sinto o viço aqui por dentro
Fortaleza que me guia.