Ficamos imensamente felizes por ter nossa obra “Mulheres Negras que Marcaram a história”, com uma das indicações de leitura da Biblioteca do Metrô, Neli Siqueira .
Carta à minha filha

Filha, desculpe por isso. Também sou criança e ainda tenho atitudes imaturas. Desculpe por tudo que idealizei e não cumpri, não só por mim, mas por nós, por um projeto. Você veio para nos completar mas você transbordou, de tão bela e maravilhosa, você é muito maior que nós juntos. Você veio pra transcender, pra ser a expressão do que nós fomos em dois.
Você é o amor, é fruto dele e me faz pensar o quanto construir essa ideia, mas não consegui, filha. Me sinto fracassada, não por você, mas por mim, pelos meus planos e te coloquei no meio disso… Você todo dia fala em nós, como te conforta, era só o que eu queria, nós juntos, mas eu fracassei, meu amor.
Desculpa por isso… desculpa não cumprir com o prometido ou pelas frustrações… mas você é só uma criança, ainda vai ver muita coisa, e ainda iremos viver muito.
Sinto sua falta em tudo, quando está longe. Às vezes deixo tudo do mesmo jeito de quando você saiu, só para ter a sensação que você está aqui comigo e eu não estou sozinha. Entro no seu quarto várias vezes, vejo seus brinquedos, suas roupas e dou risada sozinha lembrando de suas brincadeiras… Entro no banheiro e vejo sua escova de dente, tão pequenina, fica lá no mesmo canto, até você voltar e usá-la novamente, toda semana, no mesmo ciclo…
Mas eu queria mesmo era todo dia você por perto, sinto sua falta em tudo, seu cheirinho suado, sua risada natural, suas histórias de um dia na escola, queria isso todo dia…
Mas filha, eu tenho você todo dia, por que eu sinto você pensando em mim e o quanto sentimos falta uma da outra. Nossa conexão é tão nossa, as suas palhaçadas, as nossas aventuras no caminho da escola, você me entende tanto, e você só tem 3 anos, como pode?
Você me acolhe quando estou triste, o seu abraço com esses bracinhos tão pequenos, me dá tanto conforto, tanta confiança…
Ser mulher, já somos julgadas e nos sentimos culpadas, quando chegamos na maternidade isso reforça, a culpa vem sem medo e às vezes só o choro resolve e nos coloca no lugar. Os resultados a gente vê quando você me fala, sem eu estar esperando: “mamãe eu te amo”. Isso me derrete toda, eu deixo tudo e vou ao teu encontro te cheirar muito. Você ainda não sabe a imensidão que essas palavras vindas de você significa pra mim, um dia saberás, mas o nosso cotidiano sempre será de muito afeto e respeito para demonstrar o quanto sou grata por ter me escolhido como mãe.
Filha, desculpa! Mesmo que eu saiba que nós mulheres a todo momento somos apontadas ao tribunal do julgamento, essa culpa parece que não quer desaparecer da gente. Ela vem intensa e solitária e em alguns momentos nos põe lá no chão. Mas chega você com toda delicadeza e um sorriso gigante, abraçando minhas pernas, e quando a culpa desaparece eu falo: “deixa eu aproveitar aqui que eu ganho mais”. Você entenderá quando crescer, espero que já esteja forte o suficiente para não absorver esse tipo de sentimento, farei de tudo para te fortalecer, mas espero pelo menos que entenda essa culpa que carrego e por isso só consigo te falar: desculpa, filha!
Entretanto, mesmo com tanta culpa não posso deixar de te agradecer pela grandeza que é você e o quanto só a sua presença me impacta e renova minha vida. Obrigada pela paciência comigo, com meu processo de aprendizado, como disse lá no começo, muitas vezes minhas atitudes são imaturas e ajo na emoção, mas saiba que sempre é querendo o melhor que eu posso te dar, esse sempre é meu objetivo. Depois que você floresceu nossas vidas eu só consigo viver pra te fazer uma mulher poderosa e dona de si e eu não quero só te dizer isso lá na frente, eu quero que você tenha exemplos assim ao seu lado, que possa se espelhar e seguir seu próprio caminho. A culpa some quando penso nisso, porque no final eu sei qual sentido devo ir!
Obrigada mais uma vez por tudo que fez na minha vida!
Te amo
De sua mamãe!
Não é fácil ser mulher

Não é fácil ser mulher
Nesse nosso dia a dia
Enfrentamentos e lutas
vida bruta e covardia
Não é fácil ser mulher!
É preciso Rebeldia!
Não é fácil ser mulher
e ter que ficar calada
nossos corpos violados
nossa voz silenciada
Há tempos nos questionam
nossa opinião julgada.
Não é fácil ser mulher
Temos corpos invadidos
uma gozada na nuca
nossos desejos agredidos
uma passada de mão
Nossos corpos são vendidos
Não é fácil ser mulher
julgam na maternidade
quando não querem ser mães
afetam a integridade
e se por estar solteira
falam de promiscuidade
Não é fácil ser mulher
Se impõe, é arrogante
se não se expõe, é omissa
falar alto é extravagante
falar baixo é vitimista
Se discorda, é intolerante
Violência, abuso e assédio
Ações do cotidiano
Sofrida em todas idades
Julgamento leviano
Não é fácil ser mulher
Nesse contexto mundano!
Não é fácil ser mulher
Com os dedos apontados
A sociedade opressora
não respeitam os legados
na escola ou no trabalho
nossos corpos relegados
Não é fácil ser mulher
homicídios , opressão
espancamento e gritos
no trabalho, exploração
chega de ficar calada!
vamos formar um cordão
Não é fácil ser mulher
é preciso ousadia
derrubar os inimigos
que nos prendem todo dia
a tarefa é coletiva
Não se cabe a covardia
Se unam a nossa luta
pra nossa classe vencer
o inimigo é todo aquele
que faz seu sangue se perder
nos dividem e nos exploram
para nos adoecer
Não é fácil ser mulher
Mulher não é fácil ser
Mulher se levanta e vamos
a ordem desobedecer
Daqueles que nos oprimem
Mulher, vamos nos erguer!
Por Maria Clara Psoa – Não é fácil ser mulher!
O Comportamento do “Homem Carente” – produto do machismo estrutural

Olá queridos leitores e queridas leitoras!
Meu artigo desse mês chega ainda na esteira do machismo, em meio a tantas denúncias de importunações sexuais, abusos e afins que continuam surgindo frequentemente e que nos chegaram em baldes e mais baldes em pleno mês da mulher.
Hoje volto aqui em minha coluna para falar de um tipo muito específico de homem, que na maioria das vezes nem chega a praticar esses abusos que vem sendo denunciados, mas que agem de uma forma que nos constrangem demais.
Eu falo de “homens carentes” (inseguros e problemáticos ou simplesmente egocêntricos e narcisistas?), que além de darem em cima de todas as mulheres que agradam o seu gosto, que com o passar do tempo vai ficando cada vez mais apurado (ainda que seus quesitos e dotes próprios não correspondam em nada a este padrão elevado exigido por eles nas mulheres, muito pelo contrário, pasmem!), ainda acham que quando alguma mulher os trata com atenção, educação ou simpatia, ela está lhes dando mole, ou pior, quando alguma mulher que simplesmente está fazendo o seu trabalho (como atendentes, garçonetes e afins) que está lhes tratando bem, muitas vezes por obrigação, está lhes dando mole.
Se você homem, leu a descrição e se identificou em alguma dessas situações, é a sua chance de refletir e talvez parar de agir dessa forma com mulheres que você percebe que se sentem incomodadas com tal interação.
Se você é mulher e já passou por alguma dessas situações descritas acima e não se sentiu bem, sinta-se aqui acolhida e compreendida.
Bem, tudo isso faz parte do grotesco machismo estrutural no qual estamos imersos (as). O artigo funciona como uma forma de desabafo/desafogo, mas a esperança de que isso mude está muito aquém da realidade onde posso me encontrar.
E vamos de poesia, essa em específico retirada da nossa primeira obra coletiva, o “Justiça Violada”, do nosso coletivo Teodoras do Cordel, poema feito por mim para Mari Ferrer, que acredito eu, dispensa apresentações:
A tristeza é desmedida
Ao pensar na situação
Dói no peito, a ferida
Desespero e opressão
Ao pensar que em nossa vida
O respeito é exceção
Mariana é humilhada
A violência só se arrasta
Sua vida é estraçalhada
Minha alma aqui desgasta
Ao gritar, desesperada
Desejando dar um basta.
Um abraço e até a próxima,
Graziela Barduco.
Rainhas do Cordel: Biblioteca Menotti Del Picchia recebe cordelistas do Teodoras do Cordel

No último dia 17 de março de 2023, o cordel e a escrita feminina foram temas da roda de conversa promovida pela biblioteca Biblioteca Menotti Del Picchia, localizada no bairro do Limão, na capital e contou com coletivo Teodoras do Cordel como convidado.
A atividade aberta ao público, contou com a participação de diversas profissionais da área da educação que puderam se aprofundar mais no universo cordeliano e bater um papo descontraído com as Teodoras: Lu Vieira, Maria Clara Psoa, Maria Rosa e Graziela Barduco.
Confira as fotos da ação:
Desabafo sobre o machismo: machos reclamantes

Olá, pessoal! Como estão?
Retomo minhas atividades por aqui, em minha coluna mensal no portal das Teodoras do Cordel em pleno mês dedicado às mulheres e gostaria de falar mais uma vez acerca de um assunto que precisa ser discutido exaustivamente: o machismo, já que não importa quantas vezes a gente fale dele, ele está sempre a milhas e milhas de distância de se esgotar.
É um dado concreto que em 2022, 35 mulheres foram agredidas por minuto aqui no Brasil. Assim como em 2021, a cada 10 minutos 1 mulher foi estuprada, a cada 7 horas houve 1 feminicídio e no primeiro semestre de 2022, 699 mulheres foram mortas no Brasil.
E além dessa realidade pra lá de desumana, incrédula, hipócrita e desoladora com a qual somos obrigadas a conviver dia a dia, sabe o que mais tem me assombrado e intrigado atualmente? Homens reclamando que são mal compreendidos, pouco considerados e altamente “prejudicados” porque não se consideram machistas e estão sendo colocados no mesmo balaio dos machistas pelas “feministas malvadas que são muito cruéis ao defenderem seus direitos e afins”.
Ora, façam me o favor! Olhem para os dados da realidade e me digam se eu tenho tempo de pegar na sua mão e te agradecer de coração por você dizer que faz o mínimo que um ser humano decente deve fazer, ao invés de ir à luta para tentar impedir que milhares de mulheres morram, sejam agredidas, violentadas a cada minuto que passa no meu reloginho? Me poupem!
Eu poderia ficar aqui explanando horas e horas sobre as atitudes machistas incutidas no nosso dia a dia e reproduzidas por anos a fio tanto por homens quanto por mulheres sem muitas vezes nem perceber, mas vou optar por terminar o artigo com leveza, apresentando-lhes um de meus poemas:
Na tristeza destemida
Sem saber o que fazer
Eu perdi quase uma vida
Pra tentar me entender
E no peito uma batida
Nesta luta que é viver
Olho o longe, tão distante
Sem saber como agir
Desespero ofuscante
Sem lugar para fugir
E me perco neste instante
Deixo a alma sem dormir
O cansaço vem nefasto
Destroçando o meu respiro
Vem pisar no tempo gasto
No momento em que me viro
Pois caí no mundo vasto
Ao sair do meu retiro
E da onda tão sonora
Que ouvi na solidão
Quando a alma foi embora
Só sobrou o coração
Que não pulsa como outrora
Mas negou a escuridão.
Um abraço!
Sigamos forte na luta,
Graziela Barduco.
Mulherada do Teodoras realiza primeira reunião de 2023

Depois de um merecido período de recesso, foi hora da mulherada do coletivo se reencontrar para relembrar o ano vitorioso de 2022, e todas as ações e eventos de fortalecimento do cordel feminino realizado pelo Teodoras. Cordelistas de várias cidades do Estado participaram do encontro. A reunião também pautou sobre os próximos passos do grupo e também sobre a criação das comissões de trabalho, a fim de agilizar as demandas das integrantes executivas.
Pertencimento

Olá queridos leitores e queridas leitoras!
Depois de um período de intensas crises de pânico e ansiedade, bravamente contornadas nos últimos dias para conseguir dar conta de toda a agenda e cronograma de trabalho, retorno para casa com calma, depois de intensas vivências em Paraty, na FLIP, e começo com mais uma nova medicação, devido a sequela de uma invasão hacker que sofri no mês passado em minhas redes sociais, atrelada a alguns outros problemas pelos quais venho passando, os quais têm me deixado num estado de intenso sofrimento.
Olhando para minha trajetória de vida, eu chego a conclusão de que sempre fui muito, mas muito diferente de tudo, de todos, sempre fui meio estranha e minha lógica de pensamento sempre foi muito diferente, bem como sempre tive muita dificuldade de seguir padrões, de me encaixar, de me inserir, de me manter em algum determinado grupo ou local.
Hoje vejo que finalmente encontrei no universo do cordel um mundo no qual finalmente posso ser eu mesma, pelo qual me sinto totalmente acolhida e pertencente. Hoje sinto que o cordel é minha casa e as pessoas do cordel são parte da minha família. Ademais, mesmo com todas as minhas inseguranças, fragilidades, extrema sensibilidade e minhas crises, venho tentando levar a vida com leveza e bom humor, embora às vezes pareça tudo muito difícil, complicado e impossível.
Creio que meu maior desejo é que eu consiga manter essa energia de nunca parar de lutar. No mais, que eu aprenda também, de uma vez por todas, a lidar com a frieza e o desdém do outro, que tanto me machucam, que eu entenda que nada do outro eu deva esperar e que eu sempre possa me orgulhar de como sou, e de todo amor e cuidado que trago comigo, e que faço questão de aos outros despender, sem esperar nada em troca. E sobretudo, que eu não deixe nunca, nunquinha, nada mais dessa vida me machucar. Viva o cordel! Viva a cultura popular brasileira!
Novas Cirandas
Eu pensei neste momento
De profunda intensidade
Já com o peso da idade
Resvalando meu tormento
Levantei o acampamento
E parti pra outras bandas
Pra buscar novas demandas
E suprir tanto vazio
Eu me perco no desvio
Só pra achar novas cirandas.
Um grande abraço, com muito carinho a todos,
Graziela Barduco.
Feira Literária Internacional de Paraty recebe Teodoras do Cordel

A convite do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o coletivo feminino Teodoras do Cordel Artevistas SP integrou a comitiva paulista de cordelistas e aportou na Feira Literária mais famosa do Brasil, a FLIP.
O cordel, reconhecido em 2018 como Patrimônio Cultural Imaterial, fez parte da programação durante os cinco dias de evento. As atividades aconteceram na Casa Cordel (sede administrativa do IPHAN/RJ) e contou com uma programação diversificada, tendo o cordel feminino como destaque em vários momentos, com a participação das integrantes em diversas mesas de debates, rodas de conversa, performances e lançamentos de livros.
Coletivo lança na FLIP nova coletânea em homenagem as mulheres indígenas

O lançamento da terceira obra coletiva do Teodoras, ‘Mulheres Indígenas que Marcaram a História’ (2023 – editora Areia Dourada), durante a FLIP 2022, foi simplesmente incrível. A obra, homenageia 10 mulheres indígenas e brasileiras símbolos de força e resistência. Na oportunidade, o grupo declamou as estrofes do livro revelando de forma performática e respeitosa, toda honra a história de cada mulher guerreira homenageada pelas cordelistas, numa junção de forças simbólicas, cheias de encanto e poder, tal como o encanto dos rios, da terra, do fogo e do ar que respiramos.
Confira as fotos do lançamento na FLIP: