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11 maio

Mãe possível

Ser mãe é doar o seu estado de presença. Vai além do amor incondicional. Por que será que só se fala mais, do amor incondicional da mãe? Por que não é comum também, se discutir o amor incondicional de um pai? Só daí, já começa a cobrança.

Não deixamos de ser mulheres depois que nos tornamos mães. Continuamos tendo outros diversos interesses na vida pessoal, amorosa, profissional. Então, porque, ao invés de questionarem as mulheres que querem continuar tendo (ou não) outras rotinas (além da maternagem), não são criadas oportunidades para que todas as mães possam fazer o que realmente desejam e precisam? Se trabalha fora e terceiriza a educação dos filhos, é criticada; Se fica em casa e deixa o emprego, também. Se engorda depois dos filhos, é desleixo. Se deixa de frequentar lugares, é antissocial. É conciliar vida amorosa, casa, corpo, saúde mental, trabalho profissional e tantas outras cobranças incutidas na mente da mulher ao longo de tantos anos, que é impossível não se sentir culpada por não dá conta de tudo.

Ser mãe não é sinônimo de você ter que se renunciar cem porcento. Qualquer que sejam as escolhas da nossa vida (seja ou não escolhendo ser mãe), sempre renunciaremos a algo. Tudo é questão de prioridade. E na construção de uma prole, não seria diferente não é mesmo? Então por que, nós mulheres, nos sentimos tão culpadas de tudo, principalmente no quesito maternidade?

A pressão social com certeza é um dos fatores mais determinantes. Produzir seres humanos de “sucesso” é a garantia do capitalismo continuar existindo. Então mulher, trate de garantir isso, porque se depender dos pais (homens detentores do poder), tudo estará em risco.

É por essas e outras questões que, cada vez mais, os discursos relacionados ao feminino vêm sendo reconstruídos. E toda mudança gera estranhamento não é mesmo? Mas tem gente que prefere dizer que feminismo é algo ruim, coisa de loucas que agem como macho e não querem se depilar (e mesmo se fosse, o que muda a vida de alguém elas serem assim?). O fato é que discursos generalistas e estereotipados, existem apenas para que nós, mulheres (as únicas que realmente sabem onde o calo aperta no dia a dia), nos sintamos cada vez mais culpadas e inibidas de sermos quem realmente somos. Como assim, compartilhar vitórias e acolher fraquezas? Vocês têm mesmo é inveja umas das outras!(Que mulher nunca ouviu isso na vida?)

Por que será que tantas mulheres se sentem ainda mais sozinhas quando se tornam mães? Somos humanas. Somos MULHERES. É urgente que tenhamos um olhar mais empático com as nossas próprias questões. Inclusive a de julgar (ou tentar justificar) os porquês das mulheres que decidem NÃO SER mães. Isso é uma escolha de cada uma e tá tudo certo. Será que um homem que não deseja ser pai é tão questionado assim?

Não cabe mais, nos dias de hoje, a gente julgar uma igual (seja ela mãe ou não) por qualquer motivo que seja. Vamos ser o que é possível, e aplaudir o esforço da luta de cada uma. Sororidade já!

E se em algum momento, a gente conseguir uma brecha para sair da própria luta individual (que também não é nada fácil) e conseguir ajudar uma outra mãe com a luta dela (mesmo que a sua luta pareça ser a maior de todas), com certeza em algum momento o nosso fardo se tornará mais leve. Não basta apenas falar: – Vai passar! Se puder ajudar a tornar leve o que tá pesado pra ela (naquele momento), tenha certeza que isso jamais será esquecido. Seja chegando com uma comidinha pronta ou propiciando uma simples conversa lavando uma louça, dando um banho num filho dela pra ela poder tomar o próprio banho, ficando algumas horas com as crianças dela pra ela poder dar uma saidinha com companheiro, ou mesmo, poder cochilar sem interrupções. São ajudas tão “tolas” que nem parecem ter tanta importância né? Mas toda mãe sabe o quanto essas pequenas ajudas revigoram suas energias.

Haverão aqueles que pensarão: – Então porque teve filhos? E porque teve mais de um filho se não pode bancar babá, escola x, y, z? Mas, e se não fosse essas corajosas para colocar esses seres humanos no mundo, o que seria da nossa espécie? Tendo filhos ou não, todos somos responsáveis pelas crianças deste mundo. Nem todo mundo é mãe, mas todos vieram de uma! Vamos valorizar mais o maternar e julgar menos. Todas as mães dão aos seus filhos aquilo que é possível, principalmente as mães solo. O impossível, o incondicional, vamos deixar para os contos de fadas. Aliás, até os autores (as) de contos de fadas já estão mudando essas narrativas. Mas isso é papo para um outro artigo. Finalizo hoje, com este decassílado escrito para a minha obra Maternagem em Sete Versos, publicado pela Editora MWG.

MATERNAR É EXALAR
AMOR EM ESTADO PURO
TER FÉ, SER PORTO SEGURO,
EM SITUAÇÕES DO FALAR
RIR E TAMBÉM SILENCIAR
NÃO DEIXAR DE OUVIR OS BANJOS
AFINADOS PELOS ANJOS
GUIAR COM SIMPLICIDADE
ENTENDER NOSSA VERDADE,
MELHORANDO SEUS ARRANJOS!

Um xêro na alma,
Dani Almeida

01 maio

Dia Internacional do Trabalho – Um conto

As três mulheres se encontram como sempre, no lugar de sempre, mas não no quando de sempre. Aquele dia não era um dia de sempre. Comemorava-se o Dia Internacional do Trabalho. Sim, a informação veio da Cidade  e tinha saído na Rádio Difusora também, que a partir daquele dia, todo dia 01 de maio, em todo mundo, o mundo iria parar de trabalhar. Mas para aquelas mulheres sertanejas não fazia sentido ser um dia do trabalho em que não se trabalhava. Ao bem da verdade, todas ali não conseguiam muito bem separar que era trabalho, o que era emprego, o que era função, o que era obrigação, o que era sina.

Naquele povoado de Tacaratu, em Pernambucano, as pessoas viviam a vida de sempre. Rotinas cíclicas. Memória concretizada nos ritos e tradições das povoações originais e que, cada vez mais intensamente, via-se aglutinando a modernidade das ondas do rádio, dos folhetins, do cinema e do circo. Até os livretos de cordel ditavam a “moda” para o momento e regras sociais a serem seguidas.

Aquelas três mulheres tentavam entender por que em plena segunda-feira, em um dia do Trabalho, não poderiam seguir seus cursos regulares. Não ir à casa da Patroa, não pegar a encomenda da costura, não cuidar de nenhum idoso. O que faziam então era estar ali no terreiro enquanto a criançada, sem aula, caia solta no mundão do mato. O que poderiam fazer era prosear, mas o acertado era a proibição de falar sobre seus respectivos trabalhos!

Rotina quebrada, fala quebrada. As três mudas apenas estavam no dia. Não conseguiam ser o dia. Aquelas rotinas eram a salvação das três. Longe de suas não-escolhas de vida, viviam outros papéis. Em uma brincadeira criada por elas. Cada uma fantasiava suas relações com os maridos, filhos e comunidade aos seus patrões. E todo domingo à noite, quando as crianças davam sossego, os capítulos da semana eram narrados com toda a competência das atrizes das radionovelas.

Mas naquela manhã, não tinham assunto. Já tinham gasto tudo na noite anterior. Era feriado. Sorte delas quando estavam para subir na Rural com destino ao Centro, o filho de rama de Zefa grita: “Mãe hoje é feriado. Tem aula nem trabalho, não!”. Que diacho! E agora estavam ali, as três. Maria sentada no batente da cozinha olhando a linha da Serra. Zefá encostada no Pé de Juá tratando fumo e olhando o céu. Tonha de pé, ciscando o chão com um galho de goiabeira e de vez em quando rodopiando, dando uma pisadinha aqui, e uma pisadinha ali.

Foi aí que Maria desencantou-se das ideias, e quebrando o silêncio delas, misturando com o som do mato falou:

– Oia, diz que está todo mundo parado hoje, sem fazer nada hoje, dia de todo mundo ficar paradinho e descansar. Será mesmo?

Zefa começa a pitar o rolo e sem desviar o olho do céu esturricado de azul, sem nuvem alguma, diz:

– Parado, parado ninguém num fica é não. Tu fala isso mas eu estou aqui, fumando parada, mas minha cabeça fica pensando, pensando…

Tonha que além de ciscar o chão, agora rodopiava cantarolando uma ladainha que ninguém entendia, vira para Zefa e pergunta:

– E se eu disser que já sei o que tu está pensando, deve ser o mesmo que eu.

– Estou pensando em comer uma buchada de bode, que é comida de feriado! Esse negócio de ficar parada só dá fome mesmo. E logo hoje, que lá em Dona Dulce ia fazer carne de boi. Eita nóis viu?! Responde Zefa, rindo alto.

– Mas quem é que para mesmo, com seis zombeteiros, como eu? Maria comenta. – Seis meu, com mais quatro teu e os dois de Maria, já é uma aldeia todinha de capetas! Resmunga.

– Opaí mulé! Meus filhos são um bem, uma benção. Crio do meu jeito. Olha vai cuidar da tuas lavagem de roupa, que os meus meninos cuido eu, de meu jeito ouviu? Responde Zefa aos berros.

– Ei, podem parar com essa bobageira de briga! As coisas tem acontecer é assim mesmo Deus quer. O que vem no bucho da gente e o que vamos dar a Mãe Terra de volta. O que eu tava pensando, Zefa, era sobre aquele outro assunto que falamos ontem depois da prosa!

– Ah sim. Maria que acha de irmos lá falar com a Cachimbeira sobre teu problema?

– Tenho problema nenhum, para Cachimbeira resolver. Zé é assim mesmo. São seis meninos. É duro para mim e para Ele também. E toda vez que ele está com o negócio de mentirinha, eu descubro. Faço um prato caprichado, mais umas lapadas de cachaça, umas rodadinhas de coco e o desavergonhado solta tudinho. Vou lá, no outro dia. Dou uma pisa na “moça” e acabo com tudo. Ele descobre que fui eu e me dá umas lapadas e depois fica bem. Também num tem mais nenhuma sirigaita! Responde rindo, Maria.

– Maria não pode ser mais assim. Tu precisa mesmo de ajuda. Agora está sossegado. Ele está lá, junto com João e Zé na Budega de Sabina, mas não se esqueça que o peste te empurrou na parede novamente. Da outra vez quebrou tua mão e dessa vez, tu perdeu o menino. Tonha suplica.

– Vida miserável. Mas como ficar sem Raimundo? Sou mulé dele desde os 14 anos de idade. Como uma tuia de mulheres daqui, fui prometida desde nova. Essa coisa de casar com primo tem em todo lugar. A minha patroa é prima do marido dela!

– Oia, cabando com essa conversa mole e caldo de fava! Simbora falar com a Cachimbeira, e botar para render esse dia. Num é feriado mesmo?! Proclama, Zefa.

As três sobem a Serra e descem até o vale, chegando na Gruta Itaoca, morada da Cachimbeira. Metros antes da entrada é possível sentir o cheiro do fumo forte e de uma misturada de outras ervas do rezo sagrado. A velha Pankararu vivia a anos morando no mato e vivendo do que ganhava, plantava e caçava. Dizem que perdeu o juízo quando o marido a largou e levou a filha para fora do Brasil, para nunca mais. Dizem, que aquela pessoa que vem atras do saber e da cura da Cachimbeira são pessoas que não tem medo da verdade. Pois as pessoas fracas e que não aceitam o segredo, enlouquecem com suas palavras esfaqueantes.

Maria chorou o caminho todo até a Serra, lembrando a violência que vinha sofrendo anos a fio. Cada filho seu era fruto de uma sessão de agressão sexual. Nas entressafras, como Ela chamava, quando Raimundo se apaixonava por alguma mulher nova, Maria era esquecida. Mas quando algo falhava nos planos de Raimundo, suas decepções da rua transformavam-se em tabefes e socos no lombo de Maria. As sessões de xingamentos e violência física eram abrandados com mais álcool. Na sequência, Raimundo mandava Maria vestir uma roupa de Missa e seguia-se aos eventos de tortura e estupro. E se Maria engravidasse, a vida era bela. Ela amava estar grávida. Nesses períodos, Raimundo a tratava bem. Cuidava de Maria com tanto zelo que chamava atenção de todo povoado. Raimundo se esforçava ao máximo, dando conta de até três jornadas de trabalho para garantir a boa-vinda da criança.

Raimundo amava os filhos mais que tudo no mundo. Raimundo não amava Maria. Amava a capacidade de Maria ser mãe de filhos bons para Ele. Maria sabia disso. Nem sempre Maria engravidava. Até ter a confirmação da gestação, Ela também não apanhava. Houve momentos em que Maria mentiu quando percebeu que não estava grávida de fato. Mas não foi muito bom o resultado. Foi nessa ocasião que Raimundo quebrou a sua mão em uma surra, quando percebeu que Maria estava mentindo já que a barriga não crescia.

O som do agitado maracá da Cachimbeira quebra o pensamento de Maria. Todas cumprimentam a anciã com um beijo na mão, e sentam-se em sua frente. Ela começa uma dança ritmada e evocações com cantos que fazem as três sentirem-se leves e seguras. A energia do lugar muda de mistério para colo e a gruta clareia-se como um encanto. As três abrem os olhos e a Cachimbeira está de volta ao mesmo lugar, olha para cada uma e fala:

– Podem perguntar ou pedir. Lembrem-se: Faça a pergunta certa, para ter a resposta certa. Peça o que tem direito, para ser aceito. Peça o que é errado, tenha caminho maldado.

– Senhora, nossa irmã está passando… Tonha é interrompida pela Cachimbeira, que vira-se para Maria e diz:

– Tu tá apanhando muito. Todo dia leva uma lapada de toalha molhada, para não aparecer as marcas. Tu tás saindo por aí e dando pisa nas mulé, que não merecem apanhar. Elas já tomam de mais da vida. E principalmente do cão que é teu marido. Tu sonhou já com o que vai fazer. Tu sabe o que é preciso fazer. Tua mãe era do rezo. Ela te ensinou também. Tenha a coragem, a vontade tu já tem. Organize as ideias. Pergunte a coisa certa ou faça o pedido certo. Só posso atender uma vez. E nada mais.

– Que sonho foi esse? Pergunta Zefa.

– Conte agora. Tu só fala das tuas invenções lá com tua Patroa e nunca fala a verdade para tuas irmãs. Reclama, Tonha.

– Sonhei que estava indo para a Delegacia do Distrito para dar queixa de Raimundo. Estava vestida como a minha Patroa, de salto, vestido escuro, luvas, chapéu. Estava bem maquiada e até com perfume fino. Só sonho mesmo… Mas então entrei na delegacia e fui bem recebida pelo Delegado Araújo. Ele me recebeu todo lorde e gentil. Era como se fosse umas nove da manhã. Comecei então a contar o que acontecia e mostrava também as marcas em meu corpo. A cada informação que eu falando, Delegado Araújo ia ficando vermelho e maior, seus olhos iam cada vez mais escurecendo e começou a exalar um odor ardido e que queimava as narinas. Ao mesmo tempo que eu ia dizendo que essa violência era vivida por outras mulheres do povoado e por outras mulheres do mundo, as ruas, casas e lojas, praças e prédios públicos iam se destruindo e desfazendo todo lugar. Até chegar em nosso redor e só restarmos Eu e Ele sem chão, flutuando no vazio. Então o Delegado Araújo me abocanha de uma vez e me engole. Quando Ele faz isso, o povoado volta todo ao normal.

– Eu não entendi foi é nada. Reclama Tonha.

– Se tu tiver aqui apenas para fazer sombra, toma chá de Mulungu e vai te embora. Tua irmã precisa de ajuda. Todas têm que rodar para ajudar. Retruca a Cachimbeira.

– O que entendi é que Maria tem o poder de acabar com isso tudo. Mas tem que fazer de um jeito certo. Porque o mundo em que vivemos, essa vida pequena, não vai dar conta de cuidar de uma mulher violentada pelo marido. Vão dizer que é coisa de casal. Ainda mais Delegado Araújo, que dizem até que apanha da mulé dele. Meu entendimento é que tem que ser por outra justiça, que é preciso fazer o certo. O certo para nós, que vivemos isso na pele. Todo dia. Menos em dia de feriado. Argumenta Zefa.

Maria fica calada um tempo. A Cachimbeira coloca-as assentadas e começa a lançar fumaça do cachimbo em cada uma. Sagra o momento e aplica-lhes o rapé. Um silêncio profundo se instala. Por um tempo necessário, as três mulheres choraram, abraçaram-se, cantaram, dançaram, banharam-se de ervas, vestiram-se de mato e comeram juntas.

Maria se levanta como se tivesse pisado em urtiga e solta:

– Já tenho a pergunta para fazer. Na verdade a pergunta é para a Senhora e o pedido é para as minhas irmãs. Posso?

As duas afirmam com a cabeça e a Cachimbeira reforça:

– Podem perguntar ou pedir. Lembrem-se: Faça a pergunta certa, para ter a resposta certa. Peça o que tem direito, para ser aceito. Peça o que é errado, tenha caminho maldado.

– Senhora dona da sabedoria dos ancestrais, da cura e do fazer, o que eu estou pensando em fazer agora, na minha cabeça, vai dar certo? Pergunta Maria.

– Sim! Responde a Cachimbeira agitando fervorosamente seu maracá e firmando uma pisada no chão.

– Irmãs, as duas dão conta de me ajudar a dar conta do plano?

Tonha e Zefa dizem que sim.

As três despedem-se da Cachimbeira e retornam ao povoado.

Dia de Lua, festa na rua, bandeirolas, comes e bebes. Povo enfeitado e colorido, esperando a roda de Coco de Tebei para celebrar o noivado e a pisada do barro da casa de Nena, filha de Dalva da Venda, e de Juarez, sobrinho de Vital da Farmácia. As irmãs estão juntas proseando sobre a vida.

– Ana vai dançar mais Juninho mermo Tonha, ou vai desistir que nem festa passada? Pergunta Zefa.

– Vai sim, oxe, Ele está querendo muito. Vai ficar bonito os dois. Zé vai trazer ele agorinha. Tão terminando a última jornada de hoje, vão banhar e vêm. Estou doida para dançar. Responde Tonha. Pena, que tu num pode, né Maria?!

– Pois é, mais uns dias e eu tiro esse preto de mim. Mas meus filhos, eu já liberei tudinho. Já está bom de luto.

As três riem e seguem para o meio da festa.

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Maria Rosa

São Paulo, 01 maio 2023

 

 

 

20 abr

Carta à minha filha

Filha, desculpe por isso. Também sou criança e ainda tenho atitudes imaturas. Desculpe por tudo que idealizei e não cumpri, não só por mim, mas por nós, por um projeto. Você veio para nos completar mas você transbordou, de tão bela e maravilhosa, você é muito maior que nós juntos. Você veio pra transcender, pra ser a expressão do que nós fomos em dois. 

Você é o amor, é fruto dele e me faz pensar o quanto construir essa ideia, mas não consegui, filha. Me sinto fracassada, não por você, mas por mim, pelos meus planos e te coloquei no meio disso… Você todo dia fala em nós, como te conforta, era só o que eu queria, nós juntos, mas eu fracassei, meu amor.

Desculpa por isso… desculpa não cumprir com o prometido ou pelas frustrações… mas você é só uma criança, ainda vai ver muita coisa, e ainda iremos viver muito.

Sinto sua falta em tudo, quando está longe. Às vezes deixo tudo do mesmo jeito de quando você saiu, só para ter a sensação que você está aqui comigo e eu não estou sozinha. Entro no seu quarto várias vezes, vejo seus brinquedos, suas roupas e dou risada sozinha lembrando de suas brincadeiras… Entro no banheiro e vejo sua escova de dente, tão pequenina, fica lá no mesmo canto, até você voltar e usá-la novamente, toda semana, no mesmo ciclo…

Mas eu queria mesmo era todo dia você por perto, sinto sua falta em tudo, seu cheirinho suado, sua risada natural, suas histórias de um dia na escola, queria isso todo dia…

Mas filha, eu tenho você todo dia, por que eu sinto você pensando em mim e o quanto sentimos falta uma da outra. Nossa conexão é tão nossa, as suas palhaçadas, as nossas aventuras no caminho da escola, você me entende tanto, e você só tem 3 anos, como pode?

Você me acolhe quando estou triste, o seu abraço com esses bracinhos tão pequenos, me dá tanto conforto, tanta confiança… 

Ser mulher, já somos julgadas e nos sentimos culpadas, quando chegamos na maternidade isso reforça, a culpa vem sem medo e às vezes só o choro resolve e nos coloca no lugar. Os resultados a gente vê quando você me fala, sem eu estar esperando: “mamãe eu te amo”. Isso me derrete toda, eu deixo tudo e vou ao teu encontro te cheirar muito. Você ainda não sabe a imensidão que essas palavras vindas de você significa pra mim, um dia saberás, mas o nosso cotidiano sempre será de muito afeto e respeito para demonstrar o quanto sou grata por ter me escolhido como mãe. 

Filha, desculpa! Mesmo que eu saiba que nós mulheres a todo momento somos apontadas ao tribunal do julgamento, essa culpa parece que não quer desaparecer da gente. Ela vem intensa e solitária e em alguns momentos nos põe lá no chão. Mas chega você com toda delicadeza e um sorriso gigante, abraçando minhas pernas, e quando a culpa desaparece eu falo: “deixa eu aproveitar aqui que eu ganho mais”. Você entenderá quando crescer, espero que já esteja forte o suficiente para não absorver esse tipo de sentimento, farei de tudo para te fortalecer, mas espero pelo menos que entenda essa culpa que carrego e por isso só consigo te falar: desculpa, filha!

Entretanto, mesmo com tanta culpa não posso deixar de te agradecer pela grandeza que é você e o quanto só a sua presença me impacta e renova minha vida. Obrigada pela paciência comigo, com meu processo de aprendizado, como disse lá no começo, muitas vezes minhas atitudes são imaturas e ajo na emoção, mas saiba que sempre é querendo o melhor que eu posso te dar, esse sempre é meu objetivo. Depois que você floresceu nossas vidas eu só consigo viver pra te fazer uma mulher poderosa e dona de si e eu não quero só te dizer isso lá na frente, eu quero que você tenha exemplos assim ao seu lado, que possa se espelhar e seguir seu próprio caminho. A culpa some quando penso nisso, porque no final eu sei qual sentido devo ir!

Obrigada mais uma vez por tudo que fez na minha vida!

Te amo

De sua mamãe!

09 abr

Não é fácil ser mulher

Não é fácil ser mulher
Nesse nosso dia a dia
Enfrentamentos e lutas
vida bruta e covardia
Não é fácil ser mulher!
É preciso Rebeldia!

Não é fácil ser mulher
e ter que ficar calada
nossos corpos violados
nossa voz silenciada
Há tempos nos questionam
nossa opinião julgada.

Não é fácil ser mulher
Temos corpos invadidos
uma gozada na nuca
nossos desejos agredidos
uma passada de mão
Nossos corpos são vendidos

Não é fácil ser mulher
julgam na maternidade
quando não querem ser mães
afetam a integridade
e se por estar solteira
falam de promiscuidade

Não é fácil ser mulher
Se impõe, é arrogante
se não se expõe, é omissa
falar alto é extravagante
falar baixo é vitimista
Se discorda, é intolerante

Violência, abuso e assédio
Ações do cotidiano
Sofrida em todas idades
Julgamento leviano
Não é fácil ser mulher
Nesse contexto mundano!

Não é fácil ser mulher
Com os dedos apontados
A sociedade opressora
não respeitam os legados
na escola ou no trabalho
nossos corpos relegados

Não é fácil ser mulher
homicídios , opressão
espancamento e gritos
no trabalho, exploração
chega de ficar calada!
vamos formar um cordão

Não é fácil ser mulher
é preciso ousadia
derrubar os inimigos
que nos prendem todo dia
a tarefa é coletiva
Não se cabe a covardia

Se unam a nossa luta
pra nossa classe vencer
o inimigo é todo aquele
que faz seu sangue se perder
nos dividem e nos exploram
para nos adoecer

Não é fácil ser mulher
Mulher não é fácil ser
Mulher se levanta e vamos
a ordem desobedecer
Daqueles que nos oprimem
Mulher, vamos nos erguer!

Por Maria Clara Psoa – Não é fácil ser mulher!

02 abr

O Comportamento do “Homem Carente” – produto do machismo estrutural

Olá queridos leitores e queridas leitoras!

Meu artigo desse mês chega ainda na esteira do machismo, em meio a tantas denúncias de importunações sexuais, abusos e afins que continuam surgindo frequentemente e que nos chegaram em baldes e mais baldes em pleno mês da mulher.
Hoje volto aqui em minha coluna para falar de um tipo muito específico de homem, que na maioria das vezes nem chega a praticar esses abusos que vem sendo denunciados, mas que agem de uma forma que nos constrangem demais.
Eu falo de “homens carentes” (inseguros e problemáticos ou simplesmente egocêntricos e narcisistas?), que além de darem em cima de todas as mulheres que agradam o seu gosto, que com o passar do tempo vai ficando cada vez mais apurado (ainda que seus quesitos e dotes próprios não correspondam em nada a este padrão elevado exigido por eles nas mulheres, muito pelo contrário, pasmem!), ainda acham que quando alguma mulher os trata com atenção, educação ou simpatia, ela está lhes dando mole, ou pior, quando alguma mulher que simplesmente está fazendo o seu trabalho (como atendentes, garçonetes e afins) que está lhes tratando bem, muitas vezes por obrigação, está lhes dando mole.
Se você homem, leu a descrição e se identificou em alguma dessas situações, é a sua chance de refletir e talvez parar de agir dessa forma com mulheres que você percebe que se sentem incomodadas com tal interação.
Se você é mulher e já passou por alguma dessas situações descritas acima e não se sentiu bem, sinta-se aqui acolhida e compreendida.
Bem, tudo isso faz parte do grotesco machismo estrutural no qual estamos imersos (as). O artigo funciona como uma forma de desabafo/desafogo, mas a esperança de que isso mude está muito aquém da realidade onde posso me encontrar.

E vamos de poesia, essa em específico retirada da nossa primeira obra coletiva, o “Justiça  Violada”, do nosso coletivo Teodoras do Cordel, poema feito por mim para Mari Ferrer, que acredito eu, dispensa apresentações:

A tristeza é desmedida
Ao pensar na situação
Dói no peito, a ferida
Desespero e opressão
Ao pensar que em nossa vida
O respeito é exceção

Mariana é humilhada
A violência só se arrasta
Sua vida é estraçalhada
Minha alma aqui desgasta
Ao gritar, desesperada
Desejando dar um basta.

Um abraço e até a próxima,
Graziela Barduco.

17 mar

Rainhas do Cordel: Biblioteca Menotti Del Picchia recebe cordelistas do Teodoras do Cordel

No último dia 17 de março de 2023, o cordel e a escrita feminina foram temas da roda de conversa promovida pela biblioteca Biblioteca Menotti Del Picchia, localizada no bairro do Limão, na capital e contou com coletivo Teodoras do Cordel como convidado.

A atividade aberta ao público, contou com a participação de diversas profissionais da área da educação que puderam se aprofundar mais no universo cordeliano e bater um papo descontraído com as Teodoras: Lu Vieira, Maria Clara Psoa, Maria Rosa e Graziela Barduco.

Confira as fotos da ação:

05 mar

Desabafo sobre o machismo: machos reclamantes

Olá, pessoal! Como estão?
Retomo minhas atividades por aqui, em minha coluna mensal no portal das Teodoras do Cordel em pleno mês dedicado às mulheres e gostaria de falar mais uma vez acerca de um assunto que precisa ser discutido exaustivamente: o machismo, já que não importa quantas vezes a gente fale dele, ele está sempre a milhas e milhas de distância de se esgotar.
É um dado concreto que em 2022, 35 mulheres foram agredidas por minuto aqui no Brasil. Assim como em 2021, a cada 10 minutos 1 mulher foi estuprada, a cada 7 horas houve 1 feminicídio e no primeiro semestre de 2022, 699 mulheres foram mortas no Brasil.
E além dessa realidade pra lá de desumana, incrédula, hipócrita e desoladora com a qual somos obrigadas a conviver dia a dia, sabe o que mais tem me assombrado e intrigado atualmente? Homens reclamando que são mal compreendidos, pouco considerados e altamente “prejudicados” porque não se consideram machistas e estão sendo colocados no mesmo balaio dos machistas pelas “feministas malvadas que são muito cruéis ao defenderem seus direitos e afins”.
Ora, façam me o favor! Olhem para os dados da realidade e me digam se eu tenho tempo de pegar na sua mão e te agradecer de coração por você dizer que faz o mínimo que um ser humano decente deve fazer, ao invés de ir à luta para tentar impedir que milhares de mulheres morram, sejam agredidas, violentadas a cada minuto que passa no meu reloginho? Me poupem!
Eu poderia ficar aqui explanando horas e horas sobre as atitudes machistas incutidas no nosso dia a dia e reproduzidas por anos a fio tanto por homens quanto por mulheres sem muitas vezes nem perceber, mas vou optar por terminar o artigo com leveza, apresentando-lhes um de meus poemas:

Na tristeza destemida
Sem saber o que fazer
Eu perdi quase uma vida
Pra tentar me entender
E no peito uma batida
Nesta luta que é viver

Olho o longe, tão distante
Sem saber como agir
Desespero ofuscante
Sem lugar para fugir
E me perco neste instante
Deixo a alma sem dormir

O cansaço vem nefasto
Destroçando o meu respiro
Vem pisar no tempo gasto
No momento em que me viro
Pois caí no mundo vasto
Ao sair do meu retiro

E da onda tão sonora
Que ouvi na solidão
Quando a alma foi embora
Só sobrou o coração
Que não pulsa como outrora
Mas negou a escuridão.

Um abraço!
Sigamos forte na luta,
Graziela Barduco.

28 fev

Mulherada do Teodoras realiza primeira reunião de 2023

Depois de um merecido período de recesso, foi hora da mulherada do coletivo se reencontrar para relembrar o ano  vitorioso de 2022, e todas as ações e eventos de fortalecimento do cordel feminino realizado pelo Teodoras. Cordelistas de várias cidades do Estado participaram do encontro. A reunião também pautou sobre os próximos passos do grupo e também sobre a criação das comissões de trabalho, a fim de agilizar as demandas das integrantes executivas.

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