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16 fev

Carnaval com diversidade é pra quem?

Faz tempo que não apareço por aqui… muitas demandas, principalmente da finalização do meu doutorado, então estou dedicada a isso, rsrs… Mas essa semana fiz uma publicação em meu Instagram @mariaclarapsoa e minha colegas do coletivo Teodoras me incentivaram a elaborar mais aqui na coluna, uma grande ideia visto que o tema sobre maternidade, mulheres, crianças e carnaval tem tudo a ver com a gente.

Pois bem… Esse foi o primeiro carnaval (2024) que de fato curtimos com nossa filha em bloco de rua! Carnaval pra mim é tradição e de ótimas recordações. Desde sempre lembro de pular carnaval com meus pais e meus irmãos, e até hoje é costume nosso, além de passar para nossos filhos, sobrinhos a magia do carnaval.

Bloco dos Cão na Praia da Redinha em Natal-RN Ano 2002, eu sou a menor do meio com 8 anos

Carnaval é espaço de convivência, é aglomerado, mas também calmaria, ao mesmo tempo que tem bagunça, organiza nossos desejos e anseios, nos torna alguém que nos escondemos durante todo ano, nos permite ser quem somos, isso acalma nossa mente e coração.

Depois que tive filha o ritmo diminuiu muito! Ano passado pulamos um dia sem ela, e outro com ela em um bloco infantil, mas sem muita aglomeração. Esse ano nos propomos a nos aventurar, a ir pra rua mesmo, para ela conhecer o que é carnaval, mas também para curtimos, ela já entende muita coisa e está mais resistente ao cansaço. Fomos… escolhemos dois dias pra pular, domingo e terça, obviamente não conseguiríamos seguir o mesmo ritmo de antes mas foram dois dias bem alegres e Elis gostou muito, inclusive já falou que ir no carnaval de novo. rs…

No primeiro dia fomos ao bloco Samba Rock e Serpentina, concentração em frente ao bar da dona Tati, uma delicia de bloco, com bastante criança e livre para circulação ao caminhar nas ruas da Barra Funda! Próximo ano estaremos lá novamente…Em seguida no Bloco do Ilu Oba de Min, bem cheio, mas acolhedor para as famílias, tinha um espaço do cordão só para pais e crianças poderem curtir com tranquilidade.

Mas o que me indignou e me fez escrever esse texto é a diversidade do carnaval e infelizmente nem todos os espaços respeitam essa diversidade. Um espaço/evento que tem como proposta agregar, acolher, se juntar, diversificar, tem blocos que carregam só no nome essas palavras, mas a prática deixa a desejar.

Existem mães e pais que querem pular carnaval, e os blocos precisam pensar nessa condição. Fiquei bem decepcionada com o Bloco Pagu, o qual nos organizamos pra ir principalmente pelo seu significado, carregando o nome de Patrícia Galvão, grande mulher na história brasileira, e músicas de Rita Lee uma potência de mulher no Brasil. Inclusive recentemente as Teodoras escreveram uma obra em cordel riquíssima que fala de “Pagu: mulher revolução.” Contamos de toda sua trajetória de vida, seu caminho revolucionário, a primeira mulher presa na ditadura. Sim… fez história!

O bloco Pagu é bem estruturado, com bastantes seguidores e foliões. Banda maravilhosa, mulheres que passam firmeza no batuque e na voz, mas infelizmente não tem espaço para mulheres mães, um bloco que prega o feminismo, não acolhe nossas crianças. Não foi só uma pessoa da organização, foram várias que abordei para poder passar para o lado de dentro da corda enquanto o bloco se apresentava, como eu disse, estava bem cheio.

Vale ressaltar que a parte interna da corda estava muito vazia e bastante espaçosa, mas ouvi da produção “se formos deixar todas as mães com crianças entrarem?” Oxi, com a pouca quantidade de crianças que tinha, daria bem menos de gente que tinha dentro da corda. E ainda assim, pq não? Tinha muito espaço, além de nos sentirmos mais seguras. Depois fui em outra organizadora que tinha algumas pulseiras na mão, pois alguém tinha dito que só podia com pulseira, pois bem, ela disse que não podia fazer nada! Enfim, minha indignação é que o bloco que carrega o nome de uma mulher que tanto nos defendeu pode fechar os olhos e não fazer nada ao acolher pais e crianças? Nesse mesmo bloco encontramos algumas amigas, além do publico, foram super acolhedores, inclusive muitas pessoas vinham nos abordar pra pedir pra produção deixarmos entrar no cordão, não fomos só nós que nos iludimos…

Saímos do Pagu e fomos no bloco Agora Vai, outro espaço acolhedor. Elis dormiu no nosso colo, pulamos dentro da corda, além dos organizadores virem perguntar se precisávamos de alguma coisa. Um bloco com bem menos estrutura e tamanho que o de Pagu, sem mega produção e um espaço muito menor do cordão. De fato mostrou que inclui as diversidades do carnaval!

Nós três descendo no Metrô Santa Cecilia para pegar o Bloco Agora Vai (terça de carnaval 2024)

Enfim, essa é a diferença. Queria apenas fazer esse registro pra dizer: pais e crianças também curtem carnaval e é lugar de criança sim! Não podemos levantar só a bandeira, é preciso agir, feminismo sem olhar pra nossas crianças é só discurso…

13 fev

Cordel e Folia

Cordel e Folia

Olá Amores e Amoras!

Tem folia no Cordel?
Tem sim, senhor!

O cordel tem muitas facetas a oferecer, pois reúne o poder da literatura popular, a ludicidade dos contos de fadas e a musicalidade da poesia. Na poesia escrita para as crianças, a temática que envolve animais é recorrente na história do cordel. E seguindo essa tradição apresento-lhes duas histórias, a fábula “O Pavão vaidoso” e conto de fadas “ Branquinha a cabrinha encantada”.
Histórias escritas pelas Cordelistas Edimaria e Daniela Almeida que uniram sua escrita e amor pelo carnaval- sinônimo de alegria, festa feita pelo povo e para o povo. As escritoras usaram seus conhecimentos, cultura e toda riqueza do carnaval para criar seus cordéis.
Edimaria em sua caixinha pocket Cordel, escreveu a fábula carnavalesca “O pavão Vaidoso”, uma história que defende os direitos dos animais. Fala de vaidade, de amor não correspondido e do carnaval através da magia da fábula, gênero que encanta e transmite uma moral. O contato com fábulas é importante para os jovens leitores, visto que o gênero oferece aos leitores momentos de reflexão.

‘Aqui nesta história
O pavão não é sagrado
É um bicho de beleza
Porém muito massacrado
Pela maldade humana
Ele é até maltratado. ’ (Edimaria)

No cordel “Branquinha a cabrinha encantada” de Daniela Almeida, ambientada no período carnavalesco, discorre sobre uma Cabrinha que foi enfeitiçada por uma Bruxa em um bloco de carnaval.

Muito alvinha e cabeluda
Tem o olho arregalado
É esperta e orelhuda
O seu nome é Branquinha
Gênio forte, cabeçuda.

Adora um carnaval
Dançar frevo na folia
Pula, brinca lá nos blocos
Até o raiar do dia
Na festa do rei momo
Nunca perde a energia. (Daniela almeida)

Ao fazer a leitura desta belezura de obra você irá se aventurar com a protagonista ‘Branquinha’ em uma grande aventura, com direito a bruxas, feitiços, lágrimas, heroísmo e um final maravilhoso. Ingredientes que não podem faltar a uma boa história para o público infantil. Leitores que se encantam com histórias bem escritas, com personagens fortes, muita inventividade, musicalidade e adoram solucionar conflitos através do poder da magia e da bondade.
As crianças precisam ter acesso a leitura de cordéis, gênero que tem tradição em considerar os interesses da infância em suas obras.
Portanto amores e amoras, leiam cordéis para as crianças e descubram juntos o poder da brasilidade cordeleana. Pois infância é:
‘Berço da ludicidade
Encanto e conhecimento,
Infância é sapiência
Necessita entendimento
Pra reinventar o mundo
Com belezura e talento. ’ (Lu Vieira)

Para adquirir as obras indicadas sigam:
@edimariacordelista- O Pavão vaidoso
@danialmeidacordel – Branquinha a cabrinha encantada

Até breve, com mais indicações para vocês!

Lu Vieira

07 fev

Chamado à aventura do movimento

Em “um passeio no mundo livre”, inspirada nos versos do saudoso Chico Science, convoco a reflexão do MOVIMENTO, afinal, “basta um passo à frente para não estamos mais no mesmo lugar”, não é mesmo?

A impermanência da vida, naturalmente nos convida para NOVOS PASSOS, mas a pergunta que não quer calar é: quanto tempo somos capazes de protelar tal chamamento? A permanência em caminhos já conhecidos parece tão confortável! E mesmo quando não é, tem momentos que, aquilo que chamamos de CORAGEM, parece mais ter sido abduzida da gente por um disco voador. E aí? Sair do sossego ou aceitar o chamado à aventura? Ou vice-versa?

Na obra “Sissi, A Maria Farinha”, a escritora Edimaria utiliza da linguagem do cordel e da contação de histórias para apresentar as peripécias de um crustáceo que já não aguentava mais viver no sossego de uma praia linda e calma. O crustáceo em questão, é uma Maria Farinha, um tipo de caranguejo de carapaça quadrada e de coloração branco- amarelada. Sisi, como é chamada no livro, aventurou-se em novos mares. Saiu da sua linda morada em Pernambuco e resolveu explorar novos mundos. Para sua surpresa, foi parar em cima do asfalto, na ladeira Porto Geral, em São Paulo. Tentando fugir do tanto de gente que quase a pisoteava, ela foi parar numa boca de lobo que a levou direto para o Rio Tietê.

Eita que mundo estranho e esquisito! Mas, em quantos momentos não nos sentimos assim, deslocadas, igual a Sissi?

Nesta obra lúdica, poética e inteligente, podemos mergulhar junto com a personagem principal, para dentro de nós mesmos. É possível perceber, o quanto os nossos movimentos podem revelar conhecimentos que não teríamos a noção da existência se não tivéssemos saído do canto.

Como música boa de ouvir, e que tão bem são apresentadas por Edimaria (que além de ser escritora, cordelista e poetisa, é cantora), é preciso sentir os acordes, os ritmos e os tons. Ser feliz é a busca óbvia que obviamente não durará para sempre, mas sempre, pelo tempo que nos couber SER até o próximo chamado à aventura do movimento.

Visite o perfil EdiMaria Cordelista no Instagram e conheça esta e outras obras da autora.

31 jan

Um olhar animista para a infância que há em nós

Perceber a sutileza das crianças em suas inumeráveis formas de brincar é como deitar em um chão fofinho de areia e tentar contar as estrelas do céu numa noite sem nuvens. O brincar livre, algo tão natural para as crianças, infelizmente ao longo dos tempos tem sido um direito cada vez mais negado. Para alguns adultos, resta jogar a culpa às telas do “mundo moderno”. Mas, será mesmo, este o principal responsável? Já parou para pensar em qual momento do dia você se dedica a sua criança interior? Que ela está aí, pertinho de você, no centro do centro do seu coração e você simplesmente pode estar negando a existência dela? Como podemos pensar nas crianças que nos cercam, se nem ao menos temos consciência que a nossa criança interna implora por uma brincadeira livre? É fato, precisamos reaprender como se faz isso.

Como uma boa professora, mas acima de tudo, uma brincante na vida, Lu Vieira traz em seu cordel sextilhado, na obra “A Criança e o Brincar”, caminhos poéticos para atingirmos a singela meta que toda criança tem: brincar.

A autora apresenta com muita ludicidade, o passaporte para a liberdade que também rima com felicidade. Como ser leve e tornar o sofrimento breve. Como não protelar questões desnecessárias, ainda que haja rusgas no caminho a serem combatidas, mas também, como é possível rapidamente fazer as pazes, viver em comunhão. A não definir talento por gênero ou cor preferida. Como colocar vida nas situações, reconhecer o pensamento mágico e animista da criança e a interagir com ele. A infância está dentro de nós, ainda que na própria infância esse direito tenha sido negado, mas, as ressignificações são sempre possíveis porque a todo momento, a vida acontece. Para a criança, tudo tem alma. E tem mesmo! Basta emprestarmos ela para o que quer que seja.

O livro, “A Criança e o Brincar” nos leva para essa verdade. Para este encontro humano com tudo que temos direito, inclusive, com permissão para jorrarmos, o quanto quisermos, nossas “águas de choro”, esse termo tão fofo e poético criado e falado pela minha filhinha de três anos, Ester Luz, para descrever o que no cotidiano chamamos de lágrimas. Um viva a poesia das crianças, a infância e o brincar!

Visite o perfil da autora em @ler_mulher e conheça esta e outras obras de Lu Vieira.

28 jan

Versejar e Resistir

Olá Amores e Amoras,

Na coluna de hoje partilho com vocês um pequeno desabafo, fruto da minha vivência no mundo do Cordel. Gênero literário que apesar de ser conhecido pelo povo brasileiro ainda é pouco estudado nas escolas e universidades. Devido a isso sofre muitas distorções desde sua origem, conceito e produção.

“O Cordel é poesia
Um bem imaterial
Joia rara do Brasil,
Tesouro nacional
Deve ser apreciado
Pois foi nomeado, como:
Patrimônio cultural !”
Lu Vieira

O Cordel apesar de ser uma poesia brasileira, ainda é desconhecida ou tratada como literatura menor pela grande maioria dos leitores e produtores da literatura neste país. Sua importância está em ser um patrimônio cultural brasileiro que narra com maestria a história do nosso povo. É poesia viva alimentada pela realidade de quem escreve em vários cantos deste país. Tem uma estrutura fixa: métrica, ritmo, rima e oração. Não se limita, ao contrário, possui um vasto repertório de temas, como: crítica social, estrutura econômica, política, religião, cultura, ecologia e questões de gêneros. Tem como missão retratar a sociedade, seus avanços e retrocessos, através da sua singela e rica poesia. Que sabiamente opta muitas vezes por usar uma linguagem, tema e personagens que tem fácil acesso com o leitor que se reconhece na brasilidade do cordel.
Porém, quem trabalha com Cordel é sem dúvida um resistente. Pois não é bem quisto pela academia, ignorado pelas editoras, diminuído pela crítica literária e acusado de ser folclore pelos ignorantes (O folclore é tema recorrente do Cordel e símbolo de riqueza cultural, porém Cordel é literatura). Além de ter que ouvir que Cordel tem sotaque, que é feito por analfabeto…. E muitas vezes ser tratado como caricato nas feiras literárias. Mas, isso vai mudar, à medida que mais pessoas leiam nossa produção (que mesmo independente segue todas as normas de uma publicação). Já é chegada a hora de pararem de olharem a produção cordeleana como se fosse algo menor, apenas por ser genuinamente brasileira. É hora de aceitar que nós também produzimos cultura.
É uma tarefa árdua a nossa de artistas que muitas vezes atuamos como professores da cultura brasileira, temos que ensinar que Cordel é literatura, que mulher escreve, que povos indígenas e negro produzem conhecimento.
A sociedade precisa compreender que cultura brasileira é feita também, por artistas do povo, resistentes e solitários, que vivem em todos os cantos do Brasil. Nós escritores do gênero literário Cordel recebemos pouco apoio do sistema e dos que detém o poder sobre a literatura brasileira.
Esses fatores nos impactam, mas não determinam a nossa garra e vontade de contribuir para a literatura. Seguimos estudando, formando grupos de salva guarda da Literatura de Cordel- patrimônio imaterial brasileiro, clubes de leitura, simpósios, feiras de livros, apresentações artísticas e lançando obras independentes, mas seguindo a regulamentação legal.
Somos muitos e muitas neste país versejando a cultura. E a cada dia conquistamos pequenos espaços em Editoras que acreditam no poder da poesia e investem para além de um determinado ‘padrão’ literário.
Neste país temos um caso crônico de desamor a cultura, sobretudo aquela feita pelo povo e para o povo. É uma eterna sensação de ‘viralatisse’, chaga aberta da nação brasileira. Aquela que só enxerga como cultura algo importado e de preferência que não faça nenhuma referência a realidade social.
Para encerrar este texto apresento-lhes sugestões de leituras para ampliar nosso debate e estimular o estudo da história do cordel seu passado e sua realidade atual.

Leiam:

Livro -Histórias de Cordéis e folhetos de Márcia Abreu- Editora Mercado das Letras

Textos: Cordel é resistência- Graziela Barduco / Policiais ameaçam de apreender cordéis- Varneci Nascimento

#leiamcordel

Um abraço afetuoso

Lu Vieira

25 jan

Cordel é Resistência

Hoje venho compartilhar com vocês o que aconteceu com nosso grupo de cordelistas aqui da cidade de São Paulo, que resolveu se reunir na Avenida Paulista, no dia do aniversário da cidade, para comemorar os 470 anos desta metrópole que nos acolheu, cada um e cada uma vindo (a) de um canto diferente deste imenso Brasil.
Combinamos de nos encontrar de manhã e, como era uma manhã um tanto quanto chuvosa, o Sesc (que fica no cruzamento da Av. Paulista com a Rua Leôncio de Carvalho) nos autorizou a ficarmos em frente ao seu prédio, na calçada, porém abrigados sob sua marquise.
Assim que montamos nossas mesas, decoradas com toalhas de chita e terminamos de expor nossos livros de poesia e nossos cordéis, fomos abordados por alguns policiais, que diziam estar a mando da prefeitura, nos alertando de que não poderíamos ali ficar, porque, embora a marquise fosse do Sesc, a calçada pertencia à prefeitura, que não autorizava nossa permanência no local.
Tentamos dialogar e apontar o fato de que existia uma lei que respaldava o artista de rua sobre isso, ao que um dos policiais perguntou algumas vezes se sabíamos o número desta lei. Como não recordávamos do número da lei, ele seguiu como se ela não existisse e como se ele estivesse com a razão.
Eu passei a mão em meu celular e passei a procurar sobre a lei no Google.
Nesse meio tempo, meu companheiro, que é advogado, passou a dialogar com os policiais, tentando entender a situação.
Eles seguiram tentando nos impedir de estarmos ali no local com nossa arte e passaram a dizer que iriam apreender nossos livros e cordéis.
Neste contexto todo, já estavam no local 8 PMs e em seguida, 3 vans chegaram também para fazer a apreensão de nosso material artístico.
Liguei para uma amiga advogada e relatei rapidamente o ocorrido. Ela pediu para falar com a sargenta responsável pela ação policial para explicar sobre a situação, mas o consenso não se fez, assim como com o meu companheiro e os policiais.
Eu ainda continuei seguindo com a busca no Google, pela lei que iria nos respaldar e meu companheiro decidiu ir conversar com um dos responsáveis do Sesc, explicando o que estava acontecendo, pedindo por acolhida.
Eu finalmente encontrei sobre a Lei no Google, para poder mostrá-la aos policiais. Mesmo assim, eles não se mostraram dispostos a vê-la em seus pormenores, mas finalmente pareciam ter desistido da apreensão, já que as 3 vans, que ali aguardavam para levar nossos livros e cordeis, deixaram o local. No entanto não houve acordo com a sargenta sobre permanecermos no local, sendo que nós, poetas e artistas de rua, tínhamos (e temos) o total respaldo e direito de ali estar (inclusive vendendo nossas obras), de acordo com a Lei 15 776, sancionada por Fernando Haddad, conforme o link que disponibilizo abaixo:

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/comunicacao/noticias/?p=149181

De início, os policiais disseram que não poderíamos vender nossos livros e cordéis e que por isso eles seriam apreendidos, sendo que na lei diz exatamente o contrário.
Quando por fim conseguimos mostrar este trecho da lei a eles, questionaram a autoria de nossas obras.
Tirei meu documento, empilhei meus livros e pedi que a checagem do autor fosse feita com meu documento.
Na sequência, questionaram se o restante dos livros e cordéis das outras mesas pertenciam aos outros autores ali presentes.
Então eu gritei para meus amigos:

“Cordelistas, façam uma fila com seus livros e cordéis nas mãos e também com seus documentos para checagem com os policiais!”

A sargenta disse que “não precisava de tanto”.
Neste momento, o responsável do Sesc, vendo todo o ocorrido e o absurdo ao qual estávamos sendo submetidos, já que a Lei 15 776 estava sendo completamente ignorada pelas autoridades ali presentes, nos colocou para dentro, nos acolhendo em seu espaço.
E foi aí, quando não mais estávamos no “território da prefeitura”, já que estávamos para dentro do Sesc, é que os policiais repentinamente pediram “desculpas pelo mal entendido”, viraram as costas e evaporaram em segundos.
E assim a gente segue com nossa arte, existindo e resistindo, na certeza de que não vamos parar.

O cordel é resistência
Força intensa, sem igual
Arte pura, magistral
Vem da luta, a persistência
No meu peito, a minha essência
Toda armada de poesia
Me reforça todo dia
Pois com ela tudo enfrento
Sinto o viço aqui por dentro
Fortaleza que me guia.

Sigamos,
Graziela Barduco.

16 jan

Reciprocidade

Há muito tempo que um assunto me visita e revisita com uma frequência tão avassaladora que às vezes sinto o chão estremecer, tamanha a força de seu movimento.
Eu reluto em falar sobre, porque construí, e alimentei para mim, o conceito de que tal condição não é necessária para a sobrevivência, e foi aí que eu me perdi.
Ao perceber que estava redondamente enganada, e que SIM, este valor é absolutamente fundamental, pelo menos para minha concepção do que seria a base de relações mais saudáveis, decido hoje falar sobre o nobilíssimo princípio da RECIPROCIDADE.
A realidade é que o ser humano dessa contemporaneidade doida, excentricamente desvairada, vem se tornando a cada dia mais e mais egoísta, egocêntrico, interesseiro, comodista e exacerbadaente individualista, de modo que atender ao outro ou cuidar e pensar no próximo, parecem situações por demais fora do comum.
Eu não sei por que diabos eu sinto um bem estar imenso em fazer as coisas pelos outros. E também nunca tive o costume de esperar nada em troca (a tal da reciprocidade), até porque acredito que eu seja um tanto orgulhosa, de modo que tenho dificuldades em admitir que preciso de algo de alguém.
Também nunca fiquei esperando o obrigado daqueles por quem algo fiz, embora sempre achei uma palavra linda de ser ouvida, ainda mais quando vinha realmente embuída de gratidão.
No entanto, confesso que jamais esperei, nem nos meus mais sombrios pesadelos, que as pessoas pelas quais eu tenha feito algo de bom, tivessem a indelicadeza e o desconchavo de me fazer o mal.
E foi o que passei a observar por inúmeras e inúmeras vezes nos últimos tempos.
Pessoas às quais eu ajudei e pelas quais eu me doei, me fazendo mal, sem a menor cerimônia.
Uma enxurrada de ingratidão, atrelada a mau caratismo; de dispautério, de mãos dadas à insolência; de egolatria, atada a empáfia… Enfim… Foram muitas as situações.
Bem, desta forma, tudo isso me levou a esta presente ponderação.
Talvez o erro tenha sido meu, em estar sempre disponível e a postos para ajudar o outro, a ponto deste outro pouco me valorizar.
Dito tudo isso, gostaria de registrar que uma dúvida tem estado a me repercutir loucamente, sem parar: se eu tivesse “exigido” a tal da reciprocidade nas minhas ações e relações, tudo não teria sido diferente e não teria eu sido mais respeitada?
Provavelmente não.
Para não me estender muito, fica ainda para mim um grande alerta, depois de toda esta reflexão: me doar por demais, nunca mais! Com uma grande e belíssima exceção à minha família muito próxima (pai, mãe, marido e filho), que o mesmo faz por mim (temos uma baita de uma reciprocidade aqui!). Talvez por isso levamos tão a sério a doação e o amor incondicional ao próximo, já que temos a rara e maravilhosa possibilidade de viver plenamente isso no dia a dia.

E vamos de poesia, para isso tudo reparar, bem como para exorcizar a dor que outrora cá fez morada:

Eu percebo, é muito claro
Por agora, olho ao redor
Meu esforço, sei decor
Tanto fiz, e não foi raro
Tanta gente que amparo
Me demonstra ingratidão
Meu cansaço é solução
Com respeito a mim não vem
Já que o jeito que me tem
Só me afoga em negação.

Um abraço bem apertado,
Graziela Barduco.

20 nov

Teodoras lança cordel sobre PAGU na FLIP 2023

De 22 até o dia 26 de novembro, as mulheres escritoras do Teodoras do Cordel, coletivo estadual de cordel feminino do Estado de São Paulo, juntamente aos poetas e poetisas dos coletivos SP Cordel e Cordel Cantante, desembarcam na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, a convite do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), para participarem da 21ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) .

Na oportunidade, as escritoras lançarão suas obras individuais e a quarta obra coletiva do grupo, intitulada, “Pagu: Mulher Revolução”, publicada pela Editora Cordelaria Castro, com ilustração de capa de Maria Rosa Caldas, do Selo Pé no Chão.

O evento de lançamento acontece no sábado, dia 25 de novembro, às 16 horas, no espaço do IPHAN, no Areal do Pontal e contará com a presença das escritoras: Edimaria, Cleusa Santo, Lu Vieira, Dani Almeida, Graziela Barduco, Maria Rosa, Maria Clara Psoa e Zenilda Lua.

A obra é um passeio pela vida da célebre escritora, poeta, jornalista, diretora, tradutora, desenhista e cartunista, Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, homenageada da Flip 2023. Essa, é a primeira obra do Teodoras em formato de folheto. “Neste cordel, somos 16 autoras e, coletivamente, escrevemos nossas estrofes em sextilha, seguindo uma linha do tempo poética exaltando o legado de Pagu, uma multiartista que até hoje emana coragem, sendo símbolo de força e luta feminina”, destaca Graziela Barduco,  integrante da comissão de publicações do coletivo.

O Cordel na FLIP
Em 2018, a Literatura de Cordel tornou-se Patrimônio Cultural Brasileiro. Desde então, o Iphan estimula a presença de cordelistas de todo o Brasil na Flip com a Casa da Literatura de Cordel, promovendo os artistas deste segmento e oferecendo ao público, declamações, rodas de conversa, lançamentos e diversas ações de difusão da Literatura de Cordel a partir da voz de seus próprios detentores e detentoras.

Este será o primeiro ano que o cordel ocupará o Areal na Flip. A extensão da Casa da Literatura de Cordel do Iphan no local está situada na Avenida Nossa Sra. dos Remédios, no Pontal. Em anos anteriores, a literatura de cordel concentrava todas as suas atividades no escritório técnico do Iphan, no Centro histórico de Paraty. “Este ano, foi decidido que além da Casa principal, haverá uma expansão da Casa da Literatura de Cordel, organizada pelo o Iphan, para o Areal, onde haverá uma vasta programação com os coletivos de São Paulo, dentre eles o Teodoras do Cordel, Cordel Cantante e SP Cordel”, explica Edimaria, membro da Comissão Paulista de Cordelistas na FLIP.

Serviço:
Teodoras do Cordel e os coletivos SP Cordel e Cordel Cantante na FLIP 2023
Quando?
De 22 a  26 de novembro das 9 às 19 horas
Local:
Espaço IPHAN no Areal do Pontal
Endereço:
Avenida Nossa Sra. dos Remédios, Pontal, Paraty, Rio de Janeiro.

Confira a Programação Completa do Espaço Iphan no Areal do Pontal:

Quarta, 22/11
17h30 – Inauguração da extensão da casa da literatura do cordel – Espaço Iphan, no Areal do pontal.
Quinta, 23/11
10 às 12h – Microfone aberto
14h – Lançamento: Muska, o Amigo Secreto – Varneci Nascimento (SP Cordel)
14h30 – Lançamento: Retalhos da vida – Maria Clara Psoa (Teodoras do Cordel)
15h – Mulheres cordelistas: poesia e resistência – Érica Montenegro (Recife) (Convidada Teodoras do cordel)
15h30 – Apresentação Musical: A Palavra Despida – Costa Senna (SP Cordel)
16h –  Lançamento: Cosmovisão Karajá – o povo que veio das águas – Tin Tin Alves (Cordel Cantante)
16h30 – Apresentação Musical: Nas Asas da Leitura – Cacá Lopes
17h – Espetáculo Cordel Cantante

Sexta, 24 de novembro
10 às 12h – Microfone aberto
14 horas – Lançamentos: O Machista e a Cordelista e Minhas Curvas de Estimação – Graziela Barduco (Teodoras do Cordel)
14h30 – Lançamento: A criança e o Brincar – Lu Vieira (Teodoras do Cordel)
15h – Lançamento: Clamor Ecológico – Dani Almeida (Teodoras do Cordel)
15h30 – Lançamento: Saudade da Bahia – Chico Feitosa (SP Cordel)
16h- Lançamento: Poemas para adiar o fim do mundo – Moreira de Acopiara (SP Cordel)
16h30 – Lançamento: Pentalogia – João Resplandes (SP Cordel)
17h – Lançamentos: O mundo digitalizado do Reino da Saparia e O festival de inverno do Reino da Saparia João Gomes de Sá (SP Cordel)
17h30 – Apresentação  Memórias & Poesia – João Gomes de Sá (SP Cordel)

Sábado, 25 de novembro
10 às 12h – Microfone aberto
14h – Lançamento: A Boneca Viajante – Cleusa Santo (Teodoras do Cordel)
14h30 – Lançamento: Quatro Faces de Rita Lee – Dani Almeida, Maria Clara Psoa, Lu Vieira e Maria Rosa Caldas (Teodoras do Cordel)
15h – Lançamento: Estradas, Engenhos, Sinas – Aderaldo Luciano (SP Cordel)
15h30 – Lançamento: Expoente da Literatura – um cordel para Maria Firmina dos Reis – Lu Vieira e Luciano Braga (Cordel Cantante)
16h – Lançamento: Pagu: Mulher Revolução – Coletivo Teodoras do Cordel
16h30 – Lançamento: Fazenda Limão – Maria Rosa Caldas (Teodoras do Cordel)
17h – Lançamento: O Cavaleiro das léguas – Aldy Carvalho (SP Cordel)
17h30 – Microfone aberto: música e declamação.

Domingo, 26 de novembro
Programação livre até as 16 horas.

 

14 nov

Sobre Joelhos, Curvas, Coxas e Afins

Hoje me veio novamente à cabeça um episódio que aconteceu comigo há alguns anos. Acredito que muito por conta da triste morte precoce, na semana passada, da influencer e assistente de palco que foi fazer uma lipo nos joelhos e, em decorrência desta cirurgia, teve uma embolia pulmonar e veio a falecer.
O fato em questão foi noticiado nos principais jornais e, assim que eu li no jornal que assino, quase que automaticamente tive a curiosidade de buscar seu perfil nas redes sociais, primeiro porque eu não a conhecia, segundo porque eu não sabia que era possível se fazer uma lipo nos joelhos e terceiro porque não passava pela minha cabeça que pudesse existir uma queixa de que nossos joelhos pudessem também serem “acusados” de gordos. Depois ouvi as explicações sobre a condição vascular crônica chamada lipedema, da qual sofria a influencer e fui entender melhor sobre isso.
Mas, assim que vi suas fotos em seu Instagram, eu fiquei automaticamente em choque, pois me deparei com uma moça extremamente linda, magra, maravilhosa, com um corpo perfeito (incluindo aqui suas pernas e joelhos na minha humilde opinião), uma carreira promissora e de sucesso, e sobretudo que aparentava ser imensamente amada pela família, namorado, amigos e por seus fãs.
Eu fiquei absolutamente entristecida e me perguntando o porquê de coisas deste tipo acontecerem com tanta frequência, sobretudo com mulheres.
Por que o corpo da mulher é sempre alvo de críticas ferrenhas (ainda mais se ela está exposta na mídia) e nunca está bom do jeito que está?
Eu ouvi uma entrevista de uma psicanalista na qual ela dizia que o corpo perfeito para uma mulher é o corpo do homem, porque o da mulher nunca está bom, ao passo que o do homem, não costuma ser bombardeado por essa imensidão de críticas como o da mulher o é. Achei simplesmente genial essa fala dela, pois acredito sim que a crítica é sempre mais pesada sobre a mulher, herança, é claro, do nosso já conhecido machismo estrutural.
Eu li outro dia sobre uma pesquisa feita no ano de 2020, pela Sociedade Internacional da Cirurgia Plástica, que, dentre aqueles que se submetem à cirurgias plásticas, 86,3% são mulheres e 13,7% homens. Acredito que tais índices dizem muito.
Mas voltando ao tal episódio que mencionei que me veio à minha cabeça, do qual comecei este artigo falando sobre, segue o incidente, que me acontecera há alguns anos.
Eu tinha acabado de deixar meu trabalho como editora de vídeo (trabalho este decorrente de minha primeira formação acadêmica, pois sou graduada em Cinema), para trabalhar como modelo e passei a integrar o casting de modelos da Elite Models aqui no Brasil.
Na ocasião, só tinha a pós-graduação em Administração, além da graduação mencionada, bem como tinha voltado a estudar teatro.
Naquele tempo eu estava gostando daquilo, me fazia feliz, eu ganhava bem (bem mais do que na edição de vídeo) e também aquela novidade toda aumentava a minha autoestima, que, diga-se de passagem, nunca fora muito boa.
O fato é que, dentre várias das campanhas que costumava pegar, fui aprovada para uma campanha de uma empresa muito bem conceituada de cama, mesa e banho, com uma temática bem interessante e um cachê bacana também.
Bem, eu cheguei ao estúdio para fotografar muito alegre, como de costume, fui bem recebida, estava trocando ideia com as outras modelos, porém alguns minutos depois, o produtor/diretor de arte veio até mim e disse que precisaria me dispensar do trabalho.
Eu perguntei a ele o porquê da dispensa e ele me disse na lata: “você é linda, mas a sua coxa é muito grossa e isso não é nada chique, então fica fora do padrão para a campanha”.
DETALHE: eles tinham me aprovado para o trabalho com muita antecedência, tinham todas as minhas medidas, várias fotos, todo o meu material, etc e tal.
Na época me lembro que saí destroçada de lá.
Chorei muito, liguei para a agência que também pareceu se indignar (ou pelo menos fingiu muito bem, porque atitude mesmo para solucionar o embate não tomou), liguei para meu marido me buscar, fiquei mal pacas e tudo o mais.
Bem, não por acaso, essa história voltou-me à cabeça ao ver o acontecido com a influencer que teve este final tão triste, bem como não foi à toa que recentemente senti a necessidade gigante de publicar um cordel intitulado “Minhas Curvas de Estimação”, que é um dos meus mais novos lançamentos, e que fala exatamente sobre toda esta temática abordada aqui neste artigo.
Ele nasceu enquanto uma espécie de manifesto da mulher que não admite que qualquer padrão de beleza lhe seja imposto e que entende que seu corpo é lindo à sua maneira. É um cordel de autoaceitação e de empoderamento feminino, bem como de cura interior, da menina que já fora machucada com palavras que lhe perfuraram a alma por não estar com o corpo dentro de um padrão de beleza a ela tantas vezes exigido.
Seria um sonho se pudéssemos ser e simplesmente ser, cada qual à sua maneira, bem como contribuir com o mundo das mais variadas formas possíveis, para além da casca que nos é imposta.
Enquanto isso, sigo aqui na minha batalha para que tais amarras sejam cada vez mais e mais eliminadas, de modo que se faça presente “o ser de verdade e a verdade no estar.”:

Outrora tive dúvidas tão selvagens
Sentia o corpo jogado às margens
E a alma um tanto despercebida
Dor mais cruel de minha vida

Cavei um buraco um tanto fundo
Inverti e devastei todo meu mundo
Rabisquei meu diário favorito
Soterrei o que tinha de mais bonito

Eu tinha um sorriso curto
Eu falava tão mais livremente
E a amargura me provocava surto
E o corpo comunicava descrente

Então me vejo tão tímida agora
Eu não era assim, eu fui embora
Ao fugir da arrogância de certo olhar
Meu livre discurso estava a minguar

E me deparo com uma leveza que cura
Com a maravilha de uma alma pura
Mergulho profundo no céu encantado
Saltei do buraco que havia cavado

Meu discurso hoje é movimento
Meu saber está neste mais puro olhar
Trabalho a escuta do pensamento
Compartilho a essência do que é amar

Curtas palavras, longos sorrisos
É desta forma que quero propagar
A delicadeza sem tantos avisos
O ser de verdade e a verdade no estar.

Com carinho,
Graziela Barduco.

04 nov

A Desunião Cordelística

Estava acompanhando uma discussão acerca de um Congresso de Cordel que acontecerá na Casa de Rui Barbosa no Rio, ainda neste mês de novembro.
Achei magnífica a ideia de se ter um congresso sobre cordel, sendo este intitulado como o “I Congresso Brasileiro de Literatura de Cordel”, inclusive por ser sediado em uma casa que possui um dos mais importantes acervos de cordel do mundo e inclusive por ter artistas e pesquisadores, em sua grade de convidados que eu muito admiro.
No entanto, esta informação de que este congresso aconteceria, não chegou formalmente a muitos cordelistas, cantadores (as), xilogravadores(as) e pesquisadores do assunto, o que acabou causando muita estranheza e abrindo um ponto para debate em um grupo de discussão no WhatsApp sobre o Movimento do Cordel Brasileiro.
A pauta inicial para discussão neste grupo era a falta de um comunicado oficial a um maior número de cordelistas, cantadores (as), xilogravadores (as), editoras, coletivos de cordel, pesquisadores e afins, acerca de um evento de tamanha importância, realizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa em parceria com a Secretaria de Formação, Livro e Leitura e Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura.
Em um segundo momento, houve também um questionamento sobre a curadoria do evento, que, além de escolher os nomes que brilhantemente compõem a grade do evento porque são nomes que tem amplas pesquisas na área e um trabalho exímio a frente do campo cordelístico, outros nomes poderiam ser também agregados, visando a diversidade e inclusão num evento que promete ser o “I Congresso Brasileiro de Literatura de Cordel” (e aqui a ideia era agregar mulheres, indígenas, negros, deficientes, pessoas LGBTQIAPN+, etc).
Posto isso, durante a tentativa de debate, reflexão e diálogo com os responsáveis pela realização do evento para que tais pontos fossem olhados com mais cuidado na organização e divulgação de um evento de tamanha importância e necessidade, passei a me assustar com algumas (muitas) colocações.
Às vezes, as lutas se enfraquecem e se perdem, se dissolvendo ao vento, principalmente quando todas as pessoas estão do mesmo lado e por um mesmo ideal e insistem em achar que estão de lados opostos.
Muitas vezes as lutas se diluem porque algumas pessoas apenas querem intriga, jogar uns contra os outros, normalmente tentar rivalizar dois que estão pelos mesmos princípios, sem perceber que todos assim saem perdendo.
Neste grupo de WhatsApp eu sou praticamente invisível, uma ninguém, talvez porque eu seja uma “paulistinha idiota” que escreve Cordel e pergunta “que horas é a reunião” e a grande mestra que conduz o grupo não é capaz de responder.
Talvez porque ninguém saiba da minha luta e aos olhos do povo de lá eu seja uma “fraca” porque luto em coletivo e não sozinha.
Mas é que a minha avó me ensinou que a casa cheia de mulher “trabalhadeira” sempre anda nos conformes e que na hora da refeição todo mundo senta na mesa independente de quem seja você.
Hoje não participarei da reunião porque acredito que a luta daquele grupo de WhatsApp já se deturpou.
O mote? Já glosei. Quem quiser que leia. Já até publiquei!
Obrigada!

 

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